Attico Chassot 






 



 


 







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Textos para Sala de Aula - Graduação


  Da Química às Ciências: um caminho ao avesso  
  “A Ciência é uma aventura que cresce com seus erros”  
RESUMO
 

Com o advento da modernidade, em conseqüência do aumento do conhecimento houve uma cada vez maior especialização com a conseqüente disciplinarização. Na discussão trazida neste capítulo de “Educação Química – memórias, políticas e tendências” se quer prepor um caminho inverso. Numa ótica que procura buscar alternativas para se fazer uma mais consistente educação nas Ciências a proposta é romper as barreiras das disciplinas e voltar a uma Ciência sem disciplinas. Ao partir do reconhecimento que a Ciência cresce com trabalhos de especialistas se procura mostrar que em ações ligadas à Educação como, por exemplo, a alfabetização científica, são cada vez mais necessárias posturas transdisciplinares. Nos trabalhos marcados pela disciplinaridade se mostra uma quase paralisia na produção de novas descobertas e se levanta como hipótese uma obediência quase exagerada ao método científico. Para uma superação deste quase impasse se propõe a in-disciplina como uma possível metodologia. Lateralmente se mostra o quanto é mal posto o uso, em acepção pejorativa, do adjetivo ‘cartesiano’ sugerindo como alternativa ao mesmo o adjetivo ‘disciplinar’.

Palavras-chaves: anarquismo // cartesiano // disciplinar // in-disciplinar // transdisciplinar

1.FOMOS ENSINADOS SER SUJEITOS DISCIPLINARES, MAS PODEMOS DEIXAR DE SÊ-LOS.

A história da humanidade, pelo menos no mundo ocidental, é marcada por disciplinamentos. Na História da Ciência, e também, na História da Educação essas marcas se fazem bastante visíveis. Talvez se pudesse colocar nas três grandes revoluções científicas – copernicana, lavoisierana, darwiniana – as certidões de nascimento de disciplinas como a Física, a Química e a Biologia e então, o adensamento de cada vez mais posturas disciplinares, marcadas por uma rígida compartimentalização de disciplinas, tornando-se estas áreas quase impermeáveis e incomunicáveis entre si. Ainda mais, em cada uma destas disciplinas se criou campos de saberes tão particulares que passaram a se caracterizar como novas disciplinas. Por exemplo, a Química se esfacela – escolhi muito a propósito a ação e o tempo verbal – entre outras em

1 Este texto é uma versão preliminar do capítulo homônimo do livro “Educação Química – memórias, políticas e tendências” [ROSA, Maria Inês P.; ROSSI, Adriana. Campinas: Línea, 2008] a ser lançado em maio.

disciplinas como, por exemplo, a Físico-química, a Química Inorgânica, a Química Orgânica. Estas três usuais macro disciplinas podem ter dezenas de outras divisões como Astro-química, Bioquímica, Geoquímica...
As discussões que marcam este texto são feitas para uma área multidisciplinar ainda emergente: a Educação Química, que tem um pouco mais de um quarto de século. Essa idade se comparadas com outras áreas da Química, já bicentenárias, nos faz quase neófitos. Um bom indicador para olharmos o quanto nos fazemos educadores disciplinares pode ser a partir da constatação dos muitos encontros disciplinares nas áreas do ‘ensino de ...’ hoje existentes. Parte-se dos encontros de Ensino de Ensino de Química, que no Rio Grande do Sul existem há quase três décadas . Aliás, como esses encontros gaúchos, professores e pesquisadores do Brasil e do exterior ligados à Educação Química realizam eventos estaduais, regionais, nacionais e até internacionais com propósitos semelhantes. Não é diferente o envolvimento com novas propostas para Educação daqueles ligados ao ensino de disciplinas como Biologia, Física, Matemática e mesmo de disciplinas das áreas das chamadas Ciências Humanas. Reconheço a validade desses eventos mesmo que não traga aqui discussões acerca do ensino específico de Química. Quero mostrar a necessidade de irmos mais adiante, propondo outras dimensões para uma alfabetização científica desalojada de uma disciplina específica.
Por que trago, aqui e agora, uma contestação à disciplinarização? O propósito deste texto não é fazer uma contestação aos encontros disciplinares, mas ampliar discussões acerca do específico daquilo que nos dizemos especialistas. E mais, aliarmos àqueles que há mais tempo buscam alternativas onde até a in-disciplina pode ser uma das metodologias para a melhoria da Educação científica de alunas e alunos.
Propostas como essas já têm estado presentes em nossos eventos desde que procuramos enveredar por um ‘crescendo’ como o disciplinar < pluridisciplinar < multidisciplinar < metadisciplinar < interdisciplinar < transdisciplinar. Não detalho, aqui e agora, esses distintos níveis, pois os mesmos têm sido objetos de extensos estudos por diferentes autores e que estão, por exemplo, amealhados criticamente em textos como o de Almeida Filho (2005).

2 A professora Roseli Schnetzler faz oportuna análise dos Encontros de Química no capítulo 1 deste livro.

Talvez valesse tomar como ponto de partida as discussões acerca da transdiciplinaridade, que por ser o ‘quase’ ápice dos diferentes níveis antes referido tem merecido mais estudos e mesmo mais adesões. Porém, para mais adequadamente fazê-lo, é oportuno vermos o nível que lhe é extremo, ou melhor, talvez aquele quase oposto: disciplinar.
No nosso cotidiano há um adjetivo de uso corrente: ‘cartesiano’, que os dicionários (por exemplo: Aurélio, Houaiss...) conferem uma acepção pejorativa: Assim, é cartesiano o sujeito que confia de modo irrestrito e exclusivo na capacidade cognitiva da razão, mas limitando-a às explicações mecânicas, simplificadoras, que são inadequadas à compreensão da realidade. Mesmo que nesse texto vá aderir a propostas anti-cartesianas (na acepção citada) vale uma crítica a tal adjetivação. Esse adjetivo está mal posto (ou pelo menos mal definidos) em pelo menos duas dimensões. A primeira ele é uma contra-homenagem a René Descartes (1596-1650) a quem devemos contribuições tão importantes, não apenas no campo da Filosofia e da Ciência, e particularmente na epistemologia, mas até em modernas e muito usadas tecnologias como o GPS, como já se comentou em Chassot (2007). A segunda, se defendemos o anarquismo epistemológico ensinado por Feyerabend (2007) , não temos como rotular alguém de obtuso por ser disciplinar ou sistemático ou racionalista em excesso. Para contornar a primeira das inadequações, proponho se usar o adjetivo ‘disciplinar’ ao invés de ‘cartesiano’ no sentido dado como pejorativo, assim não estaremos ferreteando um nome a quem temos muitas dividas intelectuais. Quanto à segunda inadequação, nenhuma recomendação melhor que um continuado respeito ao multiculturalismo, pois parece no mínimo salutar aderirmos ao ‘tudo vale’ feyerabendiano, aceitado sem pejo que alguém seja disciplinar (= cartesiano).
Mesmo que se possa dizer que a disciplinarização é conseqüência da especialização do conhecimento e possamos colocar, por exemplo, alguns balizadores como a revolução copernicana, nos séculos 16 e 17, como definidora do nascimento da Física moderna; a revolução lavoiserana, no Século das Luzes, da Química; e a darwiniana, no século 19, para a Biologia, há um constructo epistemológico que parece

3 Àqueles ainda não familiarizados com as posturas epistemológicas trazidas por Paul Feyerabend recomendo, quase como um ritual de iniciação, a excelente produção de Paulo S. Terra no “Pequeno manual do anarquista epistemológico” [Ilhéus: Editus, 2000, 96p. ISBN 85-7455-023-X]. Trata-se de um texto acessível que oferece oportunidades para entender melhor “Contra o Método”, obra prima que desencadeou novas análises acerca da Ciência.

conformar nosso ser disciplinar. Fomos moldados para sermos sujeitos disciplinares. Há racionalizações que concorrem com as revoluções científicas, determinando a construção de paradigma epistemológico que ousaria dizer é paralelo aqueles estabelecidos nas revoluções científicas, antes citadas, muito especialmente quando usamos óculos como os apreendidos de Thomas Kuhn (1991).
Quando Descartes – no seu Discurso do Método de 1637 (1996) coloca a análise como oposição à síntese passa-se a exigir que uma etapa inicial para a construção do conhecimento seja a fragmentação do mesmo, ou seja, reduzir o todo em frações representadas por seus componentes elementares. Isso passa a determinar fracionamentos cada vez maiores e mais específicos nas áreas do conhecimento. É bem verdade que há quase quatro séculos, quando Descarte propôs essa racionalização fragmentadora não havia como prever tão extensa especialização daquilo que se chama(va) a Ciência.
Assim somos cartesianos (sem o sentido pejorativo antes referido) quando tomamos uma parte da matéria e refinamos nossa Ciência – aqui entendida como um construto humano para facilitar a leitura do mundo natural – sobre a mesma e colocamos nela nossas lentes para olharmos como ocorrem as transformações da matéria e dizemos nessa situação que estamos estudando Química (deixa de nos interessar então, por exemplo, as transformações físicas como modificações de estados ou suas variáveis). Se afinarmos mais nossas observações e dissermos que vamos observar aquelas transformações da matéria que são resultado de processos biológicos (assim não consideramos objeto de nossos estudos, por exemplo, a reação de combustão de uma folha de papel ou formação de um sal inorgânico por uma reação de dupla troca), podemos falar na disciplina de Bioquímica, ou então, se passamos estudar somente as transformações que ocorrem na matéria em conseqüência das fermentações, então a disciplina objeto de nossos estudos é a Bioquímica de fermentações.
Se formos observar como vão se constituído as diferentes disciplinas podemos constatar que isso se dá pelo refinamento dos óculos que usamos para olhar o conhecimento. Assim, por exemplo, a História, no Século 19, se separa de outras Ciências (conhecidas como Ciências Sociais, da qual ‘saíram’ também a Geografia, a Sociologia...) e se torna autônoma. Essa separação não significa ‘fim de precisão’ de outros ramos do conhecimento. Por outro lado, quanto mais independente quisermos fazer um ramo do conhecimento – isto é, que ele se baste por si –, mais esotérico ele se torna, pois a essencialidade conspira contra a contextualização. No ‘mundo real’ nenhum conhecimento ocorre total com uma autonomia ou uma independência, exige-se uma interdependência. Isso parece valer tanto para as Ciências Humanas e para aquelas tidas como Ciências Exatas. Tanto que se apregoa, para uma melhor leitura da realidade, uma visão holística isto é, uma abordagem, no campo das ciências humanas e naturais, que priorize o entendimento integral dos fenômenos, em oposição ao procedimento analítico em que seus componentes são tomados isoladamente.
Assim nos tornamos sujeitos transdisciplinares quanto mais conseguimos transgredir fronteiras, rompendo as rígidas fronteiras que compartimentalizam as disciplinas. É para isso que pretendo acenar no segmento seguinte.

2.LEVANTANDO ALTERNATIVAS PARA ABANDONAR A DISCIPLINARIZAÇÃO

Dentre as muitas Ciências, a Química, por exemplo, é aquela que estuda como as substâncias se transformam e são transformadas em outras substâncias. Falo a partir desta disciplina, não apenas por ser esta a disciplina que tem mais ritualizações, especialmente pelo quanto seus professores querem se fazer distinguidos pelo uso de guarda-pós que anunciam sua presença em laboratórios aos quais os demais colegas não têm acesso (BERNSTEIN, 1988, p. 10) e parece ser, também, a Ciência que mais labora em uma linguagem hermética e também aquela que opera com um mundo muito aquém das dimensões usualmente manipuláveis . Por ser natural opero aqui com esta também em decorrência de minha graduação em Química, que me permitiu / exigiu, em minha história, um maior e mais continuado envolvimento com a mesma. Todavia estou consciente o quanto me sinto cada vez menos Professor de Química e mais Professor de Ciências. Isso, não raro, me traz certos constrangimentos. As considerações que se fazem aqui poderiam idênticas ser para outras disciplinas. Antes das considerações anunciadas uma pequena anedota, não acepção mais usual da palavra.
Há não muito tempo (setembro de 2005) fui fazer uma palestra em uma grande universidade. O coordenador do curso de Química me apresentou com todos aqueles elogios que nos atrapalham mais do que ajudam, dizendo que eu era um apaixonado

4 Discuti isso mais amplamente no capitulo “Do esoterimo ao exoterismo” no livro “Catalisando transformações na Educação” [Editora UNIJUÍ,1993, 3ed. 1995 (esgotado)]
5 Detalho isso no capítulo “Do fantasticamente pequeno ao fantasticamente grande” no livro Alfabetização científica: questões e desafios para a educação [Editora UNIJUÍ, 2000, 2ed. 2006]


pela Química. Acrescentou que as alunas e os alunos ali presentes sabiam o quanto ele afirmava, de maneira continuada, ‘que não gostar de Química é como não gostar da mãe’. Eu comecei minha fala, assumindo o risco de decepcionar o auditório, dizendo que não gostava tanto de Química como se poderia supor pela apresentação que tinha me sido feita. Considero-me, ao contrário, muito distante de ser um quimicólatra. Assim, mesmo com continuados convites, no Orkut, não me filiei a nenhuma das muitas comunidades do tipo ‘Eu amo Química’. Também não adiro à música do Renato Russo: “Eu odeio Química! ”
Quando olhamos o objeto da Química, e ao definirmos os objetos de cada uma das ciências que conhecemos como a Física, a Biologia, a Geologia etc., nos damos conta das muitas interações e, particularmente, das intersecções entre esses campos de estudos. Temos nesse conjunto as Ciências Naturais. Aqui ainda poderíamos incluir especializações de alguns campos muito específicos como a Astrofísica, a Geoquímica, a Bioquímica. Cada uma destas disciplinas poderia ser subdividida – talvez o que melhor expresse a ação é ‘fracionada’– em disciplinas mais específicas assim poderíamos ter uma ‘astroquímica marciana’ ou uma ‘astroquímica venusiana’;
Se olharmos, por exemplo, as chamadas Ciências Humanas ? a Sociologia, a Economia, a Educação, por exemplo, ? e considerarmos as relações destas com as chamadas Ciências Naturais, e a elas adicionarmos outros ramos das ciências, teremos a Ciência, cada vez mais marcada por múltiplas interconexões. Talvez, devamos estudar como cada uma dessas Ciências construiu / constrói seu nicho e o quanto o impermeabiliza das usuais e necessárias interações com as outras disciplinas. Aqui está a essência da discussão: aceitar que se possa fazer violações nessa rígida disciplinarização.
Essas ações são diferenciadas. Assim, ainda ficando no exemplo da Química, se pode dizer que ela conjuga suas ações a processos industriais. Estes são mais facilmente associados a processos do mundo do trabalho e por extensão com ligações mais fortes ao mundo do capital. Só essa dimensão tem exigências de busca de interconexões com

6 Alguns versos dessa música são: Estou trancado em casa e não posso sair //Papai já disse que tenho que estudar // Nem música eu posso mais ouvir // E assim não posso nem me concentrar // Não saco nada de física // Literatura ou gramática // Só gosto de educação sexual // E odeio química //Química // Química // Não posso nem tentar me divertir // O tempo inteiro eu tenho que estudar // Assim não sei se eu vou conseguir // Passar nesse tal de vestibular

muitos discursos trans disciplinares; veja-se, por exemplo, as muitas inter-relações que precisaria fazer alguém que se faz especialista em Química Ambiental. Nessas dimensões, poderá haver propostas, muitas vezes, distantes daquelas daquilo que se deseja presente na sala de aula, quando seus conhecimentos são feitos saberes escolares. A Biologia – focaliza de maneira mais usual o meio ambiente ou por ter na vida a essência de suas produções – tende a associar esses conceitos à produção científica, vinculada mais fortemente à academia, com reflexos também em ações que possam ocorrer com o ensino da Biologia, em qualquer um dos níveis de ensino. Aqui talvez valesse destacar o cada vez maior poder da Genética nos dias atuais e as possibilidades de discussões em sala de aula com aspectos relacionados com ética.
Antes de prosseguir, gostaria de tecer, uma vez mais, um importante comentário lateral: é preciso dizer o quanto a divisão em Ciências Naturais e Ciências Humanas parece inadequada, pois a Química, a Física, a Biologia e mesmo a Matemática são também Ciências Humanas, porque são constructos estabelecidos pelos humanos, mesmo sabendo que não seja este o cerne para o estabelecimento da classificação.
Ao fazer esse comentário, por associação, parece que vale ainda referir também o quanto a divisão em Ciências hard e Ciências soft é uma classificação no mínimo enviesada, discriminatória, prepotente e, muito provavelmente, de autoria de um assim chamado cientista hard. Não parece crível que um cientista tido como soft faria tal classificação. É algo impressionante quanto essa discriminação é forte. Há alguns anos tenho trabalhado na graduação mais intensamente com alunas e alunos do curso de Pedagogia. É impressionante o quanto elas se sentem discriminadas, por exemplo, pelos colegas de Engenharia. Essa discriminação aumenta ainda mais por ser um curso fortemente feminino, como se mulheres não pudessem estudar ‘temas’ mais difíceis.
Ainda na busca de interconexões, em termos de disciplinas escolares ? e são essas que estão no centro da discussão ? vale considerar a atual proposta curricular, chamada pela divulgação oficial de “Novo Ensino Médio ”. O currículo disciplinar é substituído pelo currículo em áreas. A organização do conhecimento escolar foi estabelecida em três áreas: Linguagens, Códigos e suas Tecnologias (Língua Portuguesa, Língua Estrangeira Moderna, Educação Física, Artes e Informática), Ciências da Natureza, Matemática e suas Tecnologias (Biologia, Física, Química e

7 Esta é uma criação do segundo governo de Fernando Henrique Cardoso.

Matemática) e Ciências Humanas e suas Tecnologias (História, Geografia, Filosofia, Antropologia & Política e Sociologia). Essa divisão ? numa proposta oficial ? tem como base reunir em uma mesma área aqueles conhecimentos que compartilham objetos de estudo e, portanto, que mais facilmente se comunicam , criando condições para uma prática escolar de interdisciplinaridade, dentro de uma perspectiva interdisciplinar e contextualizada em oposição à fragmentação e descontextualização do ensino disciplinar.
É fácil entender o quanto as determinações oficiais buscam definir, por exemplo, o ensino de Química como parte da área das Ciências da Natureza, Matemática e suas Tecnologias. Tenho observado e me permito inferir, que há muitos envolvidos com esse ensino que não se dão conta de onde e como estão localizadas a Física ou a Química nas propostas curriculares. Isso parece ter ocorrido logo da trazida dos Parâmetros Curriculares Nacionais para o Ensino Médio (PCNEM), no final dos anos 90 da última década , e também mais recente (2005) quando o Ministério de Educação re-avaliou os PCNEM. A própria constituição de uma comissão de especialistas por disciplina marca a dificuldade oficial de avançar na proposta por áreas.
Chamado a me pronunciar nessa avaliação escrevi : “Minha primeira restrição é acerca do viés, ainda, muito ‘disciplinar’ do texto, mesmo que faça acenos a posturas multidisciplinares e até cite (e não faz mais do que isso) a transdisciplinaridade. Nas discussões epistemológicas falta uma mirada na Ciência, e nesta transgredir as fronteiras das disciplinas. Houve por demais o cuidado de preservar a especificidade da Química, ao invés de uma contemplação maior da Ciência. Aqui, foi esquecida a História da Ciência como catalisadora de possibilidades de posturas transdisciplinares”.


8 Ministério da Educação – MEC, Secretaria de Educação Média e Tecnológica – SEMTEC. Parâmetros Curriculares Nacionais para o Ensino Médio. Brasília, MEC/SEMTEC, 1999, 4 volumes (Versão disponível no sítio do MEC).
9 Rozana Gomes de Abreu, na sua dissertação de mestrado orientada pela Profª. Dra. Alice Ribeiro Casimiro Lopes, defendida na UFRJ em 01 de setembro de 2002, mostrou que a organização curricular proposta então pelos documentos oficiais dos Parâmetros não favorece mudanças efetivas na promoção de um currículo mais integrado, na medida em que seus pressupostos estão associados às relações sociais da sociedade contemporânea, principalmente ao mercado de trabalho e ao mundo produtivo.
10 No capítulo 2 deste livro Rozana Gomes de Abreu e Alice Ribeiro Casimiro Lopes dedicam competente estudo acerca das concepções curriculares presentes nas ‘comunidades disciplinares’ de educadores químicos.
11 Excerto de carta enviada a Professora Lúcia Helena Lodi, em 24 de agosto de 2005, em resposta a Carta 57/DPEM/SEB/Metodologia do Ensino de Ciências que solicitava posicionamento sobre Parâmetros Curriculares do Ensino Médio de Química.

Neste contexto é importante revisitar termos como disciplina ou disciplina escolar. Disciplina na acepção que usamos é muito recente. Até o final do século passado esta expressão queria significar, segundo Chervel (1990, p. 178), a vigilância dos estabelecimentos de ensino ou repressão das condutas prejudiciais à sua boa ordem e aquela parte da educação que contribui para isso. Recordo, que quando fiz o curso Ginasial , no final dos anos cinqüenta, tínhamos semanalmente uma nota em comportamento, obtida em função da disciplina, num sentido atitudinal. Esta acepção para disciplina não está distante de disciplinas significando correias com que membros de certas ordens religiosas e devotos se açoitam por penitência ou castigo. A dicionarização no sentido de conteúdos de ensino advém de quando se começa a listar assuntos que devem ser ministrados para a formação profissional. Nos textos mais antigos que consultei, aparecem as expressões “ramos de estudos” ou “ramas de estudo” ou “partes de ensino” ou “matérias de ensino” ou “matéria de aula” encontrando-se as recomendações como “cada academia deverá elaborar uma brochura contendo a lista dos cursos agrupados por analogia de ensino.” Até o final do século 19, a palavra faculdade significava o conjunto de estudos (disciplinas) feito por um aluno matriculado em diferentes cursos. A palavra disciplina na acepção que se usa neste texto surgiu só tardiamente no ensino secundário. Foi muito usada neste grau de ensino para indicar verbo disciplinar, num sentido de quase uma ginástica intelectual. Assim dizia-se, por exemplo, que quem tinha disciplina matemática não teria uma disciplina literária. Era também corrente a denominação cadeira para um conjunto de estudos.
Talvez valha referir aqui as disputas para que determinado conhecimento passasse a figurar no rol daqueles tidos como importantes na formação do indivíduo. Goodson (1990, p. 230-254) relata como a Geografia alçou-se em disciplina acadêmica. Há situações que se encontram verdadeiros lobbies de certas corporações profissionais para fazer de seu campo de conhecimento uma disciplina. Diria, mesmo que isso


12 Até a reforma do ensino que ocorreu com a lei 5692/71 que alterou o ensino anterior a Universidade, os atuais oito anos (mais recentemente se volta a ter nove anos no ensino fundamental) de ensino fundamental, eram divididos em dois ciclos: cinco anos de ensino primário e quatro de ensino ginasial. O acesso ao ginásio – de duração de 4 anos – se dava através do “exame de admissão” que era realizado independente (que poderia ser em outra Escola) da situação de se estar aprovado ou não no 5º ano primário.
13 Cadeira era uma unidade de ensino (alternativa ou sucessora da cátedra) onde um professor, muitas vezes com seus próprios meios (livros, aparelhagem de laboratório ou material médico e/ou cirúrgico) ensinava a seus discípulos, particularmente (e aí era geralmente na sua própria casa ou hospital) ou vinculado a um colégio.

desagrade a alguns, que nossos Encontros de Debates de Ensino de Química, e isso vale para outras disciplinas, surgiram – também – para marcar espaço e definir a importância do saber que somos especialistas. Parece que somos muito corporativistas em nossos encontros e até que estejamos fazendo reserva de mercado.
Há, também, a associação desse status a dificuldade que têm certas disciplinas, melhor talvez até fosse dizer quantos os professores fazem difícil a sua disciplina, não apenas para realçar a importância da mesma, mas também para uma auto-valorização. Uma das razões para esta possível diferença é o reconhecido status que tem certas disciplinas se comparadas com outras. Algumas são tidas como mais válidas que outras (até porque são mais esotérica). Assim se pode ouvir dizer que entender a Ciência ou a Química é mais importante que decorar cabo e baías ou que é preferível saber a Matemática do que conhecer as capitais e superfícies (áreas) dos países. Estas diferentes importâncias são definidoras do status de uma disciplina e nesta (falsa) importância algumas têm sido mais privilegiadas que outras. No meu ser professor de Química sempre senti entre meus pares certo ar de pertença a uma raça superior.
Parece que se possa creditar que a exacerbação em defesa de disciplinas mais fechadas se deva a uma cada vez maior fortificação dos conhecimentos de cada uma das áreas, com o crescimento das especializações. Hoje, por exemplo, um pesquisador da área da Química não se diz mais químico; ele é inorgânico, bioquímico, astroquímico etc. Não cabe discussão acerca do quanto a Ciência cresce pela especialização. Isso é tácito. Assim, não se está fazendo aqui um libelo contra a especialização. Esta é uma exigência dos dias atuais.
Todavia não é função da Escola anterior a Universidade formar especialista e mais, nem formar cientista e sim homens e mulheres que saibam ler a linguagem com que é escrita a natureza.
A propósito de especialização, preciso referir que tenho defendido uma tese, e defendê-la em um fórum que envolve professoras e professores do ensino superior poderá me granjear antipatias, mas mesmo assim vou fazê-lo: É mais difícil (mais complexo) lecionar ciência no ensino fundamental, do que, por exemplo, lecionar no ensino superior. Poderia provar minha tese através de vários exemplos. Aqueles que não a aceitam poderiam fazer bons exercícios de como tratar determinados assuntos — imagine ter que ensinar energia — em duas situações: em uma 6ª série do ensino fundamental e em outra, na disciplina de Físico-Química, no final de um curso de graduação em Química ou Física. Trago uma situação quase caricata em defesa de meu argumento. O ‘Fantástico’ de domingo parece determinar muito do que se ensina na Escola na segunda-feira. Professor o senhor viu...? Vi sim, mas sou professor de Física, isso é Química. Procurado o professor de Química, o descarte à resposta é sou inorgânico, isso é assunto de orgânica. Encontrado um professor de Química Orgânica, esse tem uma boa desculpa: isso se trata de compostos cíclicos, minha pesquisa é com acíclicos. Achado aquele especialista em Química cíclica, desculpar-se-á dizendo, isso é uma situação de anéis pentagonais, trabalho com anéis hexagonais. O experto em anéis pentagonais dirá que se trata de um caso de anéis heterocíclicos, ele trabalha com homocíclicos. A situação poderia se estender por mais meia dúzia de especializações. Quem dá a explicação no ensino fundamental? A professora ou professor de Ciência. A situação não é diferente para nós leigo em medicina quando temos que procurar um médico. Quando elegemos um especialista, corremos o risco de ouvir: Seu problema é no ouvido direito!... vou lhe encaminhar a um colega, pois minha especialidade é ouvido esquerdo.
Se nos definirmos por ensino menos disciplinar as ações de professoras e professores serão facilitadas. Posso ouvir uma contra-argumentação, em cima de minha historinha: é mais fácil ser médico especialista do que clínico geral. Mas, para nós é mais fácil também ter primeiro uma orientação do médico generalista. A proposta aqui defendida é que devamos oferecer a alunas e alunos essa orientação de generalistas em Ciências.
É preciso reconhecer que o nosso ensino é, usualmente, realizado de uma maneira muito a-histórica. São poucos os professores que estão preocupados em buscar um ensino mais histórico para fazer a transmissão dos diferentes conhecimentos. Antecipo que vejo na História um grande fio condutor para se buscar diminuir as barreiras artificiais que construímos e que fazem uma ? não desejável – segmentação dos conteúdos. Tenho já discutido em outros momentos sobre a minha surpresa do quanto alunas e alunos, e mesmo professores e professoras, inclusive da área de Ciência, não se apercebem da artificialidade destas rígidas gavetas onde colocamos segmentos de diferentes conteúdos. Esta surpresa – talvez dissesse melhor, esta não-enxergação – ocorre, e muito, entre os profissionais mais ligados a determinadas especializações. Há extensos comentários sobre o quanto a solução de departamentalização da Universidade (Reforma Universitária determinada pela lei 5540/68) engessou conhecimentos com uma setorização destes, conspirando contra leituras (e mesmo experiências) mais interdisciplinares das Ciências, ou até no olhar estas diferentes Ciências como a Ciência.
O estudo da História da Ciência não ocorre de uma maneira desconectada de outros estudos. Não é recomendável alguém se propor a ser um estudioso, por exemplo, da História da Biologia, sem buscar uma dimensão mais ampla para esta especialização. Aqui vale recordar que a História da Ciência não é o somatório da História da Biologia, da História da Física, da História da Geografia, da História da Matemática ou da História da Química... Para se fazer um adequado estudo da História da Ciência é preciso observar, ainda que panoramicamente, a história da Filosofia, a história da Educação, a história das religiões, a história das artes e, surpreendam-se, a história das magias e também a esquecida história “da história daqueles e daquelas que usualmente não são autores (oficiais) da história”.
Mas, esse convencimento do quanto a História da Ciência possa ser catalisador de propostas transdisciplinares, nesse texto é apenas tese. Não vou prová-la. Faço isso, por exemplo, em um extenso capítulo do livro ‘Sete escritos sobre Educação e Ciências’ (São Paulo: Cortez, 2008). A seguir, já chegando a parte final do texto quero comentar algo acerca da in-disciplina como uma possível metodologia para uma mais eficiente alfabetização científica.

3. A IN-DISCIPLINA COMO ALTERNATIVA À SUPERAÇÃO DA DISCIPLINARIDADE.

Parece que nós que nos envolvemos com as chamadas Ciências Exatas, e nesta a situação da Química não é diferente, ainda temos que nos convencer de que é preciso pensar nas condições sociais em que se insere a Ciência que produzimos. Isso se afigura ainda mais crucial quando nos referimos, por exemplo, à Educação Química. Temos que pensar nas relações daquilo que propomos fazer em termos de Educação com a economia, com a política, com a cultura. Temos que pensar, de que modo a sociedade está condicionada por grupos e por indivíduos e de que modo esses são condicionados pela sociedade. Temos que pensar como se relacionam esses indivíduos, grupos e sociedade com o resto da natureza.
Nosso fazer Educação não se consubstancia numa ilha programada por nossa fantasia. Há múltiplas realidades, que quase não permitem concepções de um mudo ideal. Isso é discutido mais extensamente no em ‘Acerca da necessidade de modelar a realidade’ por autores como Chassot (2003) no capítulo 9 de Educação conSciência e Del Pércio (2006, p. 16) traz um desenho de uma situação que não é nada exótica em nossas ações que merece ser trazida aqui. As agências de fomento – o nome não poderia ser mais poético – tendem a contratar especialistas cada vez mais especializados, para resolver segmentariamente um problema. A maior parte das análises, diagnósticos e propostas para dar respostas a uma demanda, só tem uma característica comum: entender o problema com seus óculos específicos. Peritos de cada uma das áreas propõem soluções no terreno das outras:
– o educador considera que é impossível oferecer uma educação de qualidade a meninos cujos pais não têm trabalho e moradia adequada e sofrem de carências alimentares, portanto propõe começar a resolver a questão do emprego, da moradia e da saúde;
– o experto em empregos sustenta que precisa começar atendendo as questões educativas, pois os novos modelos laborais requerem uma formação e capacitação tal que sem educação não pode haver emprego de qualidade; ainda afirma que se requer boas condições sanitárias da população para que se possa trabalhar adequadamente;
– o perito em segurança afirma que precisa começar educação, emprego e erradicação da pobreza, pois esta comprovado estatisticamente – e isso é decisivo – que quanto maior o nível educativo, menor é o uso da violência e que quanto maior o nível de equidade social, menor a taxa de violência em geral;
– o experto em saúde afirma que não há sistema de saúde sustentável sem pleno emprego (pois o sistema público não pode atender satisfatoriamente a toda a população) sem educação suficiente (base da prevenção) e sem condições ambientais e educacionais adequadas;
– o perito em habitações afirma que sem emprego e sem educação toda a política de moradias não passa de mero assistencialismo.
– o perito em questões ambientais remete o inicio de suas ações à segurança, à educação, à saúde, ao emprego...
Como nenhum dos problemas centrais da vida é possível ser abordado sem múltiplas conexões com outros problemas vitais, resulta que parece impossível de solucionarmos aquele problema no qual temos expertise. É preciso pensar, deixando de lado as nossas especializações, transgredindo as fronteiras de nossas disciplinas é propormos ações que tragam a marca daquilo que Del Pércio propõe como “a in-disciplina como a metodologia mais adequada para abordar a análise das principais tendências sociais”. (p. 20).
Transmuto a proposta da área da Sociologia, onde o autor a desenvolve sua tese, para o nosso fazer educação, até porque ninguém questionaria o quanto nos envolvemos em nossas ações de fazer alfabetização científica ou educação nas Ciências como sendo uma Ciência Social. Assim, adiro às reflexões do autor nos três sentidos em que é proposto o termo in-disciplina:
a) o prefixo in no sentido de incluir a partir da própria disciplina, meter-se dentro de outras disciplinas; são as ações que vamos fazer para colocar nossas especificidades em outras disciplinas;
b) seguindo o mesmo sentido do prefixo in, trata-se de incorporar elementos, métodos e conhecimento de outras disciplinas; aqui parece mais evidente o quanto temos buscar nas outras disciplinas, não nos bastando o ‘mundo’ pequeno ou específico de nossa disciplina;
c) o prefixo in como negação, trata de negar a disciplina no sentido etimológico do termo; aqui a proposta parece ser mais radical ou inovadora: trata-se de rebelar-nos à coerção feita pelas disciplinas que, como um látego, nos vergastam a submissão.
A proposta é feyerabendiana. Há que sermos insubmisso ao método e, mais que isso, sabermos sermos críticos a essa hiperdulia tributada ao método científico deve ser uma das causa que nos leva a constatação que temos a uma pergunta que parece que temos medo em formular: Qual e quando foi a última grande descoberta da Ciência? Se pergunta é incomoda é por que sua resposta nos soa anosa. Pois foi raio laser em 1963, já que a Internet, a telefonia celular, a clonação, o penDrive,... não foram mais que inovações ou desenvolvimentos de descobrimentos pré-existentes [Talvez o recente (junho de 2007) anúncio da descoberta da Eletricidade sem fio altere essa afirmação]. A pergunta que aflora em seguida é: Quais as causas desta paralisia?
Muito provavelmente possamos creditar ao esquecimento de uma proposta kuhniana: fazer Ciência é como montar um quebra-cabeça, porém com a radical violação de uma regra básica, presente naquilo que se constitui o domínio público em termos de montar um quebra-cabeça: quando se faz Ciência podem faltar peças ou pode sobrar peça. Concordemos que ser kuhniano é ter uma postura diferente daquela que usualmente nos foi / é passada em relação à Ciência. Assim, para Kuhn não há uma Ciência pronta, de uma maneira definitiva. As propostas que tudo deve dar certo, formatado por um método científico é que, talvez, leve a essa paralisia. Assim, há alternativas para vencê-la: “a in-disciplina como a metodologia mais adequada a muitas situações".
Sei que minha proposta está na contramão de um livro que traz uma dezena de outros capítulos mostrando “Educação Química – memórias, políticas e tendências” e venho aqui propor que deixemos a Química com suas marcas especializadas, esotéricas (e elitistas) de envolver-se apenas com as transformações que ocorrem nas substâncias, para olhá-las também em suas transformações físicas, biológicas, geológicas, geográficas e também, e principalmente quanto estas ‘específicas’ transformações químicas têm implicações sociais, políticas, econômicas, e por que não religiosa, na vida dos homens e mulheres.
Assim com in-disciplina – onde como mostrei o in tem sentido de inclusão, com está no parágrafo anterior e também sentido de negação – talvez vamos deixar de ensinar menos Química e mais Ciência e alunas e alunos terão mais condições de receberem uma significativa alfabetização científica.
 
 
BIBLIOGRAFIA REFERIDA

ALMEIDA FILHO, Naomar de. Transdisciplinaridade e o Paradigma Pós-Disciplinar na Saúde. Saúde e Sociedade v.14, n.3, p.30-50, set-dez 2005.

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CHASSOT, Attico. O legado de Descartes: bem mais que as coordenadas cartesianas. Educação UNISINOS, v. 11, n. 2, p.53-57, mai-ago 2007.

CHERVEL, André. História das disciplinas escolares: reflexões sobre um campo de pesquisa. Teoria & Educação, v. 2, p. 177-229, 1990.

DEL PERCIO, Enrique M. La condición social: Consumo, poder y representación en el capitalismo tardío. Buenos Aires: Altamira, 2006.

DESCARTES, René. Discurso do Método. Lisboa: Guimarães Editores, 1994.

FEYERABEND, Paul. Contra o método. São Paulo: Editora da UNESP, 2007

GOODSON, Ivor F. Tornando-se uma matéria acadêmica: padrões da explicação e evolução. Teoria & Educação. v. 2, p. 230-254. 1990.

KUHN, Thomas. A estrutura das revoluções científicas. São Paulo: Perspectiva, 1991.
 
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