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Entrevista a Rejane Maria Ghisolfi da Silva em 2001
1. Professor o Senhor poderia falar
sobre como foi a sua formação? Quais os
eventos mais significativos, marcas que essa formação
lhe deixou e em que essa formação contribuiu
no seu ser professor hoje?
É
muito bom conversar contigo e contar um pouco porque que
eu sou professor. Talvez o mais paradoxal de tudo, o mais
surpreendente é que eu tenha me tornado professor
por acidente. É verdade que hoje, quando eu estou
no 41o ano de magistério, se tivesse que escolher
uma profissão de novo, não tenho dúvida
que essa profissão seria a de professor. Vou contar
do acidente, ou melhor da alteração de percurso,
que me fez professor. Quando terminei o que se chamava
então ginásio, que corresponde hoje ao término
do ensino fundamental fui Montenegro, onde morava para
Porto Alegre para fazer o científico, Quando se
terminava o ginásio havia duas opções:
ou se cursava o científico ou se cursa o clássico;
é verdade que tinha para mulheres o curso normal
ou de preparação para o magistério,
e digo para mulheres, porque havia um preconceito de fazer
o curso normal. Quem quisesse ficar na pequena cidade
onde eu morava, fazia o curso técnico em contabilidade.
Fui para Porto Alegre. Havia duas opções
para fazer secundário:ou científico ou clássico;
o científico era destinado para as carreiras de
medicina e engenharia, o clássico para o direito.
É importante referir que, então, que não
se vislumbravam muitas outras possibilidades, mas, evidentemente.
que já existiam cursos, de agronomia, outros.
Havia a turma da engenharia ou da medicina, o científico
ou a turma do Direito, o clássico. Fui para o científico
e o meu destino natural parecia ser o curso de engenharia
até porque eu me dava razoavelmente bem com matemática,
com física e química etc. Terminado os três
anos u fiz o vestibular de engenharia e rodei em desenho,
na época a prova de desenho, como qualquer outra
prova era eliminatória, eu tinha, ou melhor, eu
tenho dificuldades com desenho perspectivas. Lembro-me
que na prova devia desenhar, com nanquim,elipses, e rodei
em desenho.Tendo rodado em desenho, vi que não
valia a pena continuar em Porto Alegre, onde trabalhava
única e exclusivamente para manter-me no curso
científico. Voltei para Montenegro e comecei a
procurar emprego. Para quem tinha terminado o científico
não era muito fácil, fui num lugar, fui
em outro, fui em outro, não conseguia,. Então,
minha mãe, e aqui uma homenagem para ela que me
descobriu talvez professor, disse lá no colégio
Jacob Renner estão precisando de professor quem
sabe tu vais lá. Na sugestão da minha mãe,
havia algo muito importante: o colégio Jacob Renner
era um colégio episcopal e estamos falando do ano
de 1961, portanto antes do concílio Vaticano II
que foi de 1962 a 1965. Um colégio episcopal, entre
os católicos, era considerado a pior coisa que
podia ter, pois o padre chegava proibir a os sacramentos
para quem colocasse os filhos num colégio episcopal.
E, minha mãe, muito católica, sugere que
o seu filho vá trabalhar num colégio episcopal;
isso era algo muito impressionante e ousado para os tempos
de então..Fui fazer uma entrevista com o diretor
do colégio, que ao conversar comigo decidiu que
eu daria aula de matemática, numa segunda série
ginasial. Era uma segunda feira, começaria na quinta-feira.
Dei-me conta que tinha tempo para preparar as aulas de
matemática, não sabia bem o que eu iria
ensinar de matemática, mas ele me deu alguns livros.
Mas, na tarde do mesmo dia, veio uma pessoa na minha casa
e perguntou se ali morava o professor Ático. Tive,
a primeira vez mencionado o meu nome com este qualificativo
profissional. Ante minha confirmação,me
entregou um livro de matemática do Ari Quintela,
da 3ª série do científico, dizendo
que o reverendo, que era o diretor e ministro da igreja
episcopal, aliás falecido, agora em setembro, a
quem rendo uma homenagem carinhosa. Pois disse o mensageiro,
o reverendo mandou esse livro aqui para o senhor preparar
uma aula hoje de noite para o 3º científico,
porque faltou professor. Eu tinha terminado o científico,
há alguns meses. Assim eu preparei uma aula de
números complexos, e em 13 de março de 1961
eu dei a minha primeira aula. Para encurtar um pouco a
história, aquilo que tinha faltado professor era
conversa, pois a Escola não tinha professor e me
tornei um professor de matemática do terceiro científico,
onde eu dava matemática também no ginásio,
na primeira e segunda série ginasial. O impressionante
era que de noite eu dava aula no terceiro científico
do outro dia de manhã dava aula na primeira série
ginasial, quer dizer aqui tem seis anos de diferença
de escolarização, Como um professor que
nunca havia dado aula, devo ter cometido verdadeiras barbáries,
principalmente para os alunos da primeira série
ginasial, equivaleria hoje a uma 5ª ou 6ª série
fundamental. Logo em seguida faltou a professora de Ciências,
eu passei a dar aula de Ciências na 3ª e 4ª
série do ginasial e também no curso de magistério..
Em julho, fui para Porto Alegre fazer algo que hoje não
existe mais, mas que era muito comum na época:
exames de suficiência, destinado àqueles
que estavam lecionando a título precário.
Havia a CADES, similar à CAPES que para o aperfeiçoamento
do ensino secundário. A CADES fornecia um curso
de um mês e ao finam se fazia exame e se aprovado
se obtinha o título de lecionar título precário.
Fiz exame de matemática, tínhamos aula de
didática, aula de conteúdo e depois de um
mês, obtive o título precário de professor
de matemática. Ocorre que o meu colega que fez
o mesmo curso, para Química pois lecionava Química
na Escola não passou no exame de suficiência.
Quem era reprovado no exame de suficiência não
podia continuar a dar aula e, então,, no segundo
semestre, por ter passado em matemática, a escola
estava sem professor de química, eu passei a dar
aula de química também. Isso foi muito interessante
pois dava aulas de matemática, de ciências,
de química; tinha uma carga horária grande
e ganhava mais que o diretor da escola. Foi em 1961 como
é que eu me tornei professor. Evidentemente depois
eu fiz vestibular para o curso de química, até
porque gostei muito sempre muito de lecionar química.
2. Licenciatura o Senhor fez?
Fiz licenciatura em química, na época
já tinha bacharelado, mas eu queria mesmo ser professor
Fiz a licenciatura em química 4 anos, de 1962 a
1965, quando me formei na licenciatura em química.
3. Nesse período já
estava atuando também com o ensino médio?
Nesse
período fiquei mais de 1 ano trabalhando à
noite em Montenegro; depois eu comecei a trabalhar em
São Leopoldo e quando eu me formei, já no
quarto ano da licenciatura, já dava aula num colégio
público em Porto Alegre: o colégio Júlio
de Castilhos, que na época era considerado o colégio
padrão do Estado. Dar aula no Júlio de Castilhos,
ou na Julinho, como nós chamávamos carinhosamente
era o máximo que um professor podia querer na sua
carreira. Voltava como professor depois de quatro anos,
mesmo que ainda aluno do quarto ano de química.
Dava aulas em outras duas escolas. Logo que terminei a
licenciatura fui convidado para dar aula de química
geral na Universidade Federal do Rio Grande do Sul. À
época se recebia convite para ser professor e logo
em seguida eu fiz concurso para auxiliar de ensino e,
alguns anos depois fiz concurso para adjunto e, mais tarde
fiz concurso para titular. Aposentei-me na Universidade
Federal do Rio Grande do Sul como professor titular de
química. Então, aconteceu talvez mais um
outro lance que tem a marca deste meu desvio para área
de educação. Recordo que era professor do
Departamento de Química Inorgânica, dando
aula de química geral e eu há um tempo quis
fazer mestrado, então solicitei para fazer mestrado
química, na área de cristais líquidos
na Universidade Federal de Santa Catarina. Tive o aceite
mais o meu departamento não autorizou.Isso foi
mais uma da sorte da minha vida, uma ter rodado no vestibular
de engenharia e outra no departamento não ter deixado
eu sair porque faltava professor. Se eu tivesse feito
o curso de Engenharia e o mestrado em química na
área de química inorgânica eu provavelmente
estaria noutra direção. Mas depois de um
tempo, consegui que o departamento autorizasse que eu
fizesse mestrado em educação. Isso foi muito
difícil, aceitarem em que eu fizesse mestrado em
educação, até porque era um desprestígio
Lembro que eu argumentava, e esse argumento eu faria hoje
ainda, dizia que para lecionar a química geral,
considerava que sabia o suficiente de química geral,
mas que nunca vou saberia o necessário acerca o
do como lecionar. Assim, desejava fazer um mestrado em
educação. Fiz mestrado em educação,
que terminei em 1977, quando já tinha quase 20
anos de professor e depois, mais tardiamente, sempre por
dificuldades de substituição e pela valorização
dentro do Departamento ajude a organizar a Área
de Educação Química no Instituto
de Química, algo muito complicado., Fiz depois
doutorado em educação, mas terminá-lo
já era aposentado na Universidade Federal. Assim,
aposentei-me sem ter o título de doutor. Mas evidentemente
esse título de doutor em educação,
num país cartorial como o nosso, me valeu e vale
muito e, não é por acaso, que eu hoje coordeno
um programa de pós-graduação em educação
onde nós temos mestrado e doutorado. Sou coordenador
do curso de pós-graduação da UNISINOS,
um programa muito conceituado e tenho orientandos mestrandos
e doutorandos. a maioria deles oriundos das áreas
de física, de química e de biologia até
porque no nosso Programa de Pós-Graduação
em Educação, dos 15 professores doutores.
que nós somos,sou o único que tenho formação
na graduação na área das ciências
ditas exatas. Acredito que tenha um pouco da história
de como fiz e faço professor.
4. E no ensino médio
quando o Senhor foi aluno do ensino médio não
teve eventos que o marcaram... alguma coisa?
É
tive bons professores no ensino médio. Acredito
que eu tive muita sorte. Estudava no colégio Júlio
de Castilhos, que como a pouco referi, era um colégio
importante. Lembro dos meus com os quais eu aprendi poucas
coisas, que aprendi muito bem no ensino médio.Por
exemplo, acredito que a idéia de modelo é
algo que eu trabalho tanto, quando eu dou aulas agora
e agora nesse mini-curso, que eu estou dando aqui nesse
evento e mesmo nos meus livros, A idéia de modelo
eu acredito que aprendi isso com um professor Verner Kiel,
um professor que morreu muito jovem, insistia em mostrar
que nós não trabalhamos com a realidade,
mas que a concebemos através de modelos. Isso talvez
foi o que de mais significativo eu aprendi no ensino médio.
Quando terminei o ensino médio,não podia
me imaginar seria professor, muito menos professor de
química. A química não tinha muita
atração para mim no ensino médio,
eu era um aluno que gostava de tudo, gostava de física,
gostava de matemática, gostava até de filosofia,
que nós tínhamos no científico. Mas
eu não me fiz professor por causa das aulas do
ensino médio. Recordo, que muitas vezes, quando
faltava professor no curso científico, ia para
frente e terminava explicando temas para os meus colegas.
Claro que também não era só eu que
fazia isso, nós éramos uma turma de curso
noturno, portanto gente que tinha trabalhado durante todo
o dia e se não tinha o terceiro período,
mas ia ter o quarto e o quinto período, evidentemente
que nós queríamos achar algo para fazer,
então lá um de nós ia lá para
frente. Eu lembro, que me vi muitas vezes ensinando assuntos
que eu sei hoje que são importantes no ensino médio
que contribuem para a alfabetização científica
dos estudantes. Devo dizer que eu as aprendi sendo professor
e tem coisas que eu me lembro mais claramente, eu tenho
consciência de quando é que eu as aprendi.
Muitas delas já era professor: a idéia de
conceitos como o de mol, aprendi dando aula; a idéia
de gases raros e a de gases ideais, eu não me lembro
que tenham me ensinado., É evidentemente que me
ensinaram, mas eu aprendi isso tentando explicar aos meus
alunos e alunas. Aliás a matemática que
eu sei hoje, eu a aprendi muito mais como professor de
matemática que fui.
5.
Quando o Senhor iniciou o seu trabalho na universidade
o Senhor já iniciou como professor da área
de educação?
Quando iniciei minha carreira de docente universitário
fui professor de química geral e também
de química orgânica. Na UFRGS, fui 32 anos
professor, fui também professor de Química
na UNISINOS, instituição onde comecei minha
carreira de docente no ensino superior, fui professor
universitário de Química na FAPA e na PUC.
Minha incursão na Área de Educação
ocorre no início da década de 80, inicialmente
com a criação dos encontros de Debates de
Ensino de Química. Veja que esta entrevista já
ocorre na XXI edição destes eventos e valeria
se pesquisar acerca do quanto estes eventos contribuíra/contribuem
para a Educação Química no Brasil..
Como conseqüência dos EDQs surge, ainda nos
anos 80 uma área de educação química
dentro do departamento de química que ainda existe
hoje, mas que não era considerada pela maioria
dos colegas, pois uma área de educação,
dentro de um instituto de química não tem
valor nenhum. Fui também por muitos anos o coordenador
da comissão de carreira de Química ou seja
responsável pela comissão de curso, onde
se introduziu um grupo de seis disciplinas de educação
química,duas de cada um dos três departamentos
e nessas disciplinas,mais importantes eram disciplinas
aquelas que eram as de transposição de conteúdos,
ou seja, de como trabalhar no ensino médio conteúdos
que eram estudados nas universidades. Havia poucos que
queriam lecionar essas disciplinas; estas eram as que
eu mais gostava trabalhar. Também aqui aconteceu,
um dos bons acidentes da minha vida quando havia uma disciplina
de história da química e ninguém
queria leciona-la até porque isso era considerado
pela maioria dos meus colegas algo menos importante. Eu
aceitei, e disso surgiu a minha paixão, primeiro
por história da química. Logo aí
eu vi que isso era muito restrito e comecei estudar história
da ciência. Depois, quando estava estudando história
da ciência, vi que não adiantava estudar
apenas história da ciência e tinha que estudar
também história das artes, história
da linguagem, história da filosofia, história
das religiões, e se tivesse mais tempo para estudar,
estudaria a história das magias.Então poderia
fazer diferentes tessituras com a história da construção
de conhecimento, Assim me tornei professor de história
da ciência, hoje sou o autor de um livro de história
da ciência que modestamente já está
na décima primeira edição, com quase
quarenta e cinco mil livros vendidos,,dizer isso traduz
um pouco aquilo que é meu fazer educação.
6.
E a prática de ensino professor?
Recordo muito pouco das minhas aulas de prática
de ensino, quando fui aluno e depois quando fui professor
a situação foi diferente. Quando fui aluno,
tive um bom professor, mas as nossas práticas de
ensino eram o período que o professor não
precisava dar as suas aulas, que ele tinha no colégio
de aplicação, Ele discutia da aula um pouco
e depois tínhamos que dar aula no colégio
de aplicação, fazer plano de ensino, mostrava
para ele se estava certo; ; ele sempre assistia às
nossas aulas e nunca me esqueço, quando entrei
uma vez na sala de aula estava escrito no quadro negro:
aberta a temporada de caça aos estagiários
quer dizer, os estudantes do colégio de aplicação
detestavam a presença dos estagiários, se
sentiam cobaias. Anos depois, era eu que estava dando
prática de ensino.Fui professor de prática
de ensino de química na UFRGS, na PUC, na ULBRA
e agora na UNISINOS leciono Metodologia de Ensino de Ciências
Na prática de ensino gostei sempre era bastante
inovador. Encontrei ainda nesse evento o Maurivan e quando
o Maurivan foi meu aluno de prática de ensino,
nós fizemos algo muito interessante.
7.
Foi seu aluno na prática de ensino?
Sim
8. Sim, mas em qual universidade?
Na PUC. Nesta instituição nós organizamos
na universidade o que nós poderíamos chamar
do curso pré-vestibular, onde se oferecia nos aula
de química para os alunos da zona periférica
da cidade e nossa prática de ensino era feita no
dar aula para esses alunos lá e isso era muito
bom, porque todos assistiam, todos participavam.Houve
outras experiências de prática e hoje trabalho
na graduação do ensino com uma disciplina
que para mim é muito gratificante que é
metodologia de ensino de ciências no curso de pedagogia.
Na Metodologia de Ensino de Ciências são
grupos muito bons, em geral só alunas, que maior
parte são professoras do ensino fundamental e em
geral são professores de 1º a 4ª série
se faz um trabalho muito bonito é baseado no que
descrevo no meu livro alfabetização científica
o resgate de saberes populares e se traz esses saberes
populares para sala de aula para fazê-los saberes
escolares. Isso é algo que eu gosto muito.
9.
Professor gostaria se o senhor pudesse falar um pouco
mais resgatando sua experiência
como professor de prática de ensino o que o Senhor
fazia como o Senhor fazia, porque o Senhor fazia assim?
Minha
experiência de professor de prática de ensino
começa quando como professor do departamento de
química inorgânica,sou chamado a colaborar
numa disciplina de prática de ensino, porém
sou colocado como assistente de outro professor, que tinha
sido inclusive meu professor de prática de ensino,
que não tinha formação em didática
nenhuma. Era um físico-químico bastante
importante, o seu doutorado era em fisico-química
mas era o dono da cadeira eu tinha que fazer como ele
queria. Isso me desgostava porque tudo consistia em mandar
os alunos fazer plano de ensino, olhar os planos de ensino
e assistir as aulas deles e avalia-los e terminava aí.
Então isso foi uma experiência muito ruim
no meu começo de professor de prática de
ensino,Além daquela que eu me referi antes na PUC,
como uma experiência de prática de ensino
diferente, até porque havia mais autonomia, há
uma outra que foi uma disciplina que existiu no Brasil
nos anos 70, num programa que se chamava PREMEM: programa
emergencial de formação de professores para
o ensino médio; foram nos anos da ditadura, quando
o governo tinha muito dinheiro do Banco Mundial. foram
construídos grandes prédios e se formava
professores em cursos intensivos de licenciatura. Formava-se
professores em 1 ano. Havia uma licenciatura em ciências
para formar professores de ciências e eu trabalhava
a prática de ensino de química com aquele
alunos e alunas. Gostava muito disso, primeiro que eram
professores que estudavam em regime de internato, ficávamos
trabalhando intensivamente Algo muito diferente que fazia
era selecionar conteúdos para eles dar aulas. Aí
já se sentia um pouco meu espírito de sempre
buscar coisas alternativas então se procurava fazer
aulas que não havia em muitos livros textos e como
podiam ensinar com material alternativo e também
de resgatar saberes populares etc. Se bem que essa parte
de resgate de saberes populares, talvez teve mais forte
em mim não como professor de prática de
ensino mas fazendo às vezes de professor de prática
de ensino de uma das experiências que pra mim é
mais gratificante que eu trabalho com formação
de professores e professoras para os assentamentos e para
os acampamentos do movimento dos sem terra, uma experiência
já mais documentada, tenho alguns textos escritos
sobre isso e no meu livro Alfabetização
científica : Questões e desafios para a
Educação, há 2 capítulos sobre
isso., Na verdade com esses grupos faço uma prática
de ensino de química, trabalhando as coisas que
eles sabem fazer, por exemplo, correção
de solo, uso adubos orgânicos, técnicas de
lavagem de roupas, técnicas de purificação
de água, talvez isso não nome de prática
de ensino de química,
10.
Se o Senhor fosse propor hoje um curso de prática
de ensino o que o Senhor proporia o que o Senhor gostaria
de fazer nesse curso?
Rejane, essa pergunta é difícil, mas se
há algo importante é que nós temos
que cada vez mais trabalhar com aquilo que é menos
trabalhado quando se dá aula por causa dos vícios
que tem os professores, há que algumas coisas por
exemplo, a idéia que nós trabalhamos como
modelos, a idéia que nos trabalhamos um mundo fantasticamente
pequeno, a idéia que nós trabalhamos em
conhecimento que não está pronto, então
encharcar numa prática de ensino, onde se faria
os estudantes dar aula para os seus colegas assistirem
e então escolher alguns conteúdos onde eles
tivessem que trabalhar com a idéia de modelos de
um mundo muito pequeno e ver como é enraizada a
construção do conhecimento,.
11. Qual seria a característica
do professor ideal?
Antes de qualquer coisa e acima de tudo e por primeiro,
um professor fantasticamente crítico, um professor
que soubesse perguntar se para cada um dos conteúdos
que ele seleciona porque que ele decidiu ensinar tal conteúdo
como é que ele ensina-lo, e especialmente o que
os estudantes vão fazer isso. Podes me chamar de
um utilitarista, mas acredito que nesse ponto vou enfatizar
que o professor tem que saber criticar o que ensina, por
que ensina e como ensina. Já deves ter lido um
dos meus livros, onde mostro que a maioria daquilo que
se ensina não serve para nada. Então, gostaria
que professoras e professores fossem capazes de criticar
aquilo que ensinam Isso vale tanto para o ensino fundamental,
como para o ensino médio ou para o ensino superior.
Tenho recebido convites palestras exclusivamente pra os
professores do ensino superior e tenho visto que eu não
preciso fazer grandes diferenças quando falo professores
do ensino superior. Esse ano houve uma conjugação
de uma série de situação, nas quais
fui convidado para dar seminários que inauguram
os anos letivos, numa situação houve algo
interessante, numa capital de um estado do Brasil, em
uma das escolas para as classes mais abastadas e na semana
seguinte, em outra capital eu trabalhei com professoras
e professores de periferia. Em ambas as situações,
disse quase o mesmo talvez o recado mais enfático
que eu tenho feito, isto que possa até ter escandalizado
alguns colegas, é de que ensinem menos conteúdos,
mas ensinem esses conteúdos de uma maneira mais
crítica. Isso tu já lestes em meus livros.
No Alfabetização científica : Questões
e desafios para a Educação há um
capítulo acerca dessa temática. O professor
informador já era e o que precisaremos é
cada vez mais de professores formadores. As fantásticas
tecnologias que aí estão não vão
vencer o professor formador, elas já venceram o
professor informador. Então acredito que essa é
a função da Prática de ensino, transformar
professoras e professores informadores em homens e mulheres
mais críticos, assim mais formadores;
12. Essa seria também
uma das características do Senhor de um bom professor
de química?
Não tenho dúvida bastaria essa.
13.
O seu curso de licenciatura é que o senhor hoje
não tá atuando na licenciatura de química?
Não, na minha universidade não há
licenciatura em química. Desenvolvo muito do te
relatei na Metodologia de Ensino de Ciências no
curso de Pedagogia;
14.
Como o senhor vê o professor, como esse professor
de prática de ensino a questão das 300 horas,
o Senhor já pensou um pouquinho?
Tenho discutido isso em diferentes situações.
Aliás estas discussões são repetitivas.
Não é o número de horas que o Ministério
da Educação define é que conferir
uma melhor qualidade social a Educação.
15. Professor uma coisa que
eu queria lhe perguntar o que é para o Senhor ciência?
O
que é ciência afinal?Para os efeitos daquilo
que discuto com os professores de ciência e tu pode
achar reducionista a minha resposta, mas eu vou defender
que a ciência é uma linguagem para nós
entendermos o mundo natural. Temos que ter presente que
aceita essa definição, de que a ciência
é construto humano, feito pelos homens e pelas
mulheres e muito mais pelos homens do que pelas mulheres
por causa de uma sociedade machista que fomos, pois essa
ciência que nós ensinamos é uma ciência
branca, uma ciência cristã, uma ciência
ocidental e uma ciência masculina. Mas se ela é
um construto humano, ela é falível, pois
a ciência não tem dogma, a ciência
tem algumas verdades e essas verdades são transitórias
Se tu me perguntasses para comparar a ciência de
hoje com a ciência de 100 anos atrás, esta
era marcada pelas certezas e aí eu sempre gosto
de citar um texto de Berthellot que não me ocorre
citar de memória aqui mas quando ele disse que
a ciência tudo pode sozinha e só ela tem
as verdades definitivas. A ciência de agora associo
a ela a palavra incerteza e então cito outro químico,
Prigogine prêmio Nobel de química 1977, que
diz que temos que nos acostumar a abandonar as nossas
certezas e ouvir atentamente o universo, que nós
ainda não conseguimos vê-lo como um todo.
É ainda Prigogine que afirma: só tenho uma
certeza: as minhas incertezas. Essa é a marca da
ciência hoje: um construto humano para que nós
possamos entender melhor o mundo natural e marcado pela
incerteza. Acredito essa é também uma discussão
que temos que fazer com professoras e professores e o
quanto este construto humano tem artificialmente estabelecido
gavetinhas. Diz-se isso é física, isso é
matemática..., quando na verdade, especialmente
quando ensinamos Ciências, mesmo Química
devemos procurar uma postura mais holística na
concepção da Vida e mesmo do Universo. Também
eu não vou discutir isso contigo agora, mas costumo
afirmar que é mais difícil, mais complexo
ensinar ciências no ensino fundamental do que ensinar
ciência na universidade ou mesmo na pós-graduação.
16.
E a química professor?
Acredito que valham as mesmas considerações.
17. A sua avaliação
professor como é que o Senhor avaliava os seus
alunos?
O tempo verbal está mal posto: avaliava, não,
pois ainda avalio.
18 . Avalia é não
eu digo da prática de ensino?
Acredito que a avaliação sempre é
o mais crítico no nosso ser professor, porque não
é por nada que a nossa avaliação
usualmente é uma avaliação ferreteadora,
pois a avaliação tem a marca de mostrar
os fracassos. Numa disciplina de prática de ensino
deve é algo razoavelmente fácil de avaliar,
porque discutimos acerca de um produto que não
é permanente, que está em uma numa sala
e então temos que fazer aquela avaliação
e isso que nos interessa, muito mais o como do que o que;
não é o conhecimento que alunos e alunas
ele têm de química, mas como ele transmite
esse conhecimento. Diria que na prática de ensino
há a valorização do como e não
a valorização do que.
19.
O Senhor lembra as maiores dificuldades que o Senhor teve
como professor e de prática de ensino ou não?
Acredito que uma das dificuldades que eu tive que fazer
aquilo que um outro professor, que era o titular da disciplina
exigia, com o que não concordava. Essa foi uma
das dificuldades, a outra foi o quanto, muitas vezes era
desagradável assistir aulas de prática de
ensino dos estagiários, muitas das quais exigiam,
deslocamento para outros lugares para acompanhar alunos
e alunas. Era muito difícil para mim não
intervir quando os estagiários ensinavam algo menos
correto e especialmente quando os estudantes “cobaia”
massacravam os estagiários. Isso sempre me era
algo desconfortável.
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