Entrevista a Rejane Maria Ghisolfi da Silva em 2001

CHASSOT 1

1. Professor o Senhor poderia falar sobre como foi a sua formação? Quais os eventos mais significativos, marcas que essa formação lhe deixou e em que essa formação contribuiu no seu ser professor hoje?


É muito bom conversar contigo e contar um pouco porque que eu sou professor. Talvez o mais paradoxal de tudo, o mais surpreendente é que eu tenha me tornado professor por acidente. É verdade que hoje, quando eu estou no 41o ano de magistério, se tivesse que escolher uma profissão de novo, não tenho dúvida que essa profissão seria a de professor. Vou contar do acidente, ou melhor da alteração de percurso, que me fez professor. Quando terminei o que se chamava então ginásio, que corresponde hoje ao término do ensino fundamental fui Montenegro, onde morava para Porto Alegre para fazer o científico, Quando se terminava o ginásio havia duas opções: ou se cursava o científico ou se cursa o clássico; é verdade que tinha para mulheres o curso normal ou de preparação para o magistério, e digo para mulheres, porque havia um preconceito de fazer o curso normal. Quem quisesse ficar na pequena cidade onde eu morava, fazia o curso técnico em contabilidade. Fui para Porto Alegre. Havia duas opções para fazer secundário:ou científico ou clássico; o científico era destinado para as carreiras de medicina e engenharia, o clássico para o direito. É importante referir que, então, que não se vislumbravam muitas outras possibilidades, mas, evidentemente. que já existiam cursos, de agronomia, outros.
Havia a turma da engenharia ou da medicina, o científico ou a turma do Direito, o clássico. Fui para o científico e o meu destino natural parecia ser o curso de engenharia até porque eu me dava razoavelmente bem com matemática, com física e química etc. Terminado os três anos u fiz o vestibular de engenharia e rodei em desenho, na época a prova de desenho, como qualquer outra prova era eliminatória, eu tinha, ou melhor, eu tenho dificuldades com desenho perspectivas. Lembro-me que na prova devia desenhar, com nanquim,elipses, e rodei em desenho.Tendo rodado em desenho, vi que não valia a pena continuar em Porto Alegre, onde trabalhava única e exclusivamente para manter-me no curso científico. Voltei para Montenegro e comecei a procurar emprego. Para quem tinha terminado o científico não era muito fácil, fui num lugar, fui em outro, fui em outro, não conseguia,. Então, minha mãe, e aqui uma homenagem para ela que me descobriu talvez professor, disse lá no colégio Jacob Renner estão precisando de professor quem sabe tu vais lá. Na sugestão da minha mãe, havia algo muito importante: o colégio Jacob Renner era um colégio episcopal e estamos falando do ano de 1961, portanto antes do concílio Vaticano II que foi de 1962 a 1965. Um colégio episcopal, entre os católicos, era considerado a pior coisa que podia ter, pois o padre chegava proibir a os sacramentos para quem colocasse os filhos num colégio episcopal. E, minha mãe, muito católica, sugere que o seu filho vá trabalhar num colégio episcopal; isso era algo muito impressionante e ousado para os tempos de então..Fui fazer uma entrevista com o diretor do colégio, que ao conversar comigo decidiu que eu daria aula de matemática, numa segunda série ginasial. Era uma segunda feira, começaria na quinta-feira. Dei-me conta que tinha tempo para preparar as aulas de matemática, não sabia bem o que eu iria ensinar de matemática, mas ele me deu alguns livros. Mas, na tarde do mesmo dia, veio uma pessoa na minha casa e perguntou se ali morava o professor Ático. Tive, a primeira vez mencionado o meu nome com este qualificativo profissional. Ante minha confirmação,me entregou um livro de matemática do Ari Quintela, da 3ª série do científico, dizendo que o reverendo, que era o diretor e ministro da igreja episcopal, aliás falecido, agora em setembro, a quem rendo uma homenagem carinhosa. Pois disse o mensageiro, o reverendo mandou esse livro aqui para o senhor preparar uma aula hoje de noite para o 3º científico, porque faltou professor. Eu tinha terminado o científico, há alguns meses. Assim eu preparei uma aula de números complexos, e em 13 de março de 1961 eu dei a minha primeira aula. Para encurtar um pouco a história, aquilo que tinha faltado professor era conversa, pois a Escola não tinha professor e me tornei um professor de matemática do terceiro científico, onde eu dava matemática também no ginásio, na primeira e segunda série ginasial. O impressionante era que de noite eu dava aula no terceiro científico do outro dia de manhã dava aula na primeira série ginasial, quer dizer aqui tem seis anos de diferença de escolarização, Como um professor que nunca havia dado aula, devo ter cometido verdadeiras barbáries, principalmente para os alunos da primeira série ginasial, equivaleria hoje a uma 5ª ou 6ª série fundamental. Logo em seguida faltou a professora de Ciências, eu passei a dar aula de Ciências na 3ª e 4ª série do ginasial e também no curso de magistério.. Em julho, fui para Porto Alegre fazer algo que hoje não existe mais, mas que era muito comum na época: exames de suficiência, destinado àqueles que estavam lecionando a título precário. Havia a CADES, similar à CAPES que para o aperfeiçoamento do ensino secundário. A CADES fornecia um curso de um mês e ao finam se fazia exame e se aprovado se obtinha o título de lecionar título precário. Fiz exame de matemática, tínhamos aula de didática, aula de conteúdo e depois de um mês, obtive o título precário de professor de matemática. Ocorre que o meu colega que fez o mesmo curso, para Química pois lecionava Química na Escola não passou no exame de suficiência. Quem era reprovado no exame de suficiência não podia continuar a dar aula e, então,, no segundo semestre, por ter passado em matemática, a escola estava sem professor de química, eu passei a dar aula de química também. Isso foi muito interessante pois dava aulas de matemática, de ciências, de química; tinha uma carga horária grande e ganhava mais que o diretor da escola. Foi em 1961 como é que eu me tornei professor. Evidentemente depois eu fiz vestibular para o curso de química, até porque gostei muito sempre muito de lecionar química.

2. Licenciatura o Senhor fez?

Fiz licenciatura em química, na época já tinha bacharelado, mas eu queria mesmo ser professor Fiz a licenciatura em química 4 anos, de 1962 a 1965, quando me formei na licenciatura em química.

3. Nesse período já estava atuando também com o ensino médio?

Nesse período fiquei mais de 1 ano trabalhando à noite em Montenegro; depois eu comecei a trabalhar em São Leopoldo e quando eu me formei, já no quarto ano da licenciatura, já dava aula num colégio público em Porto Alegre: o colégio Júlio de Castilhos, que na época era considerado o colégio padrão do Estado. Dar aula no Júlio de Castilhos, ou na Julinho, como nós chamávamos carinhosamente era o máximo que um professor podia querer na sua carreira. Voltava como professor depois de quatro anos, mesmo que ainda aluno do quarto ano de química. Dava aulas em outras duas escolas. Logo que terminei a licenciatura fui convidado para dar aula de química geral na Universidade Federal do Rio Grande do Sul. À época se recebia convite para ser professor e logo em seguida eu fiz concurso para auxiliar de ensino e, alguns anos depois fiz concurso para adjunto e, mais tarde fiz concurso para titular. Aposentei-me na Universidade Federal do Rio Grande do Sul como professor titular de química. Então, aconteceu talvez mais um outro lance que tem a marca deste meu desvio para área de educação. Recordo que era professor do Departamento de Química Inorgânica, dando aula de química geral e eu há um tempo quis fazer mestrado, então solicitei para fazer mestrado química, na área de cristais líquidos na Universidade Federal de Santa Catarina. Tive o aceite mais o meu departamento não autorizou.Isso foi mais uma da sorte da minha vida, uma ter rodado no vestibular de engenharia e outra no departamento não ter deixado eu sair porque faltava professor. Se eu tivesse feito o curso de Engenharia e o mestrado em química na área de química inorgânica eu provavelmente estaria noutra direção. Mas depois de um tempo, consegui que o departamento autorizasse que eu fizesse mestrado em educação. Isso foi muito difícil, aceitarem em que eu fizesse mestrado em educação, até porque era um desprestígio Lembro que eu argumentava, e esse argumento eu faria hoje ainda, dizia que para lecionar a química geral, considerava que sabia o suficiente de química geral, mas que nunca vou saberia o necessário acerca o do como lecionar. Assim, desejava fazer um mestrado em educação. Fiz mestrado em educação, que terminei em 1977, quando já tinha quase 20 anos de professor e depois, mais tardiamente, sempre por dificuldades de substituição e pela valorização dentro do Departamento ajude a organizar a Área de Educação Química no Instituto de Química, algo muito complicado., Fiz depois doutorado em educação, mas terminá-lo já era aposentado na Universidade Federal. Assim, aposentei-me sem ter o título de doutor. Mas evidentemente esse título de doutor em educação, num país cartorial como o nosso, me valeu e vale muito e, não é por acaso, que eu hoje coordeno um programa de pós-graduação em educação onde nós temos mestrado e doutorado. Sou coordenador do curso de pós-graduação da UNISINOS, um programa muito conceituado e tenho orientandos mestrandos e doutorandos. a maioria deles oriundos das áreas de física, de química e de biologia até porque no nosso Programa de Pós-Graduação em Educação, dos 15 professores doutores. que nós somos,sou o único que tenho formação na graduação na área das ciências ditas exatas. Acredito que tenha um pouco da história de como fiz e faço professor.

4. E no ensino médio quando o Senhor foi aluno do ensino médio não teve eventos que o marcaram... alguma coisa?

É tive bons professores no ensino médio. Acredito que eu tive muita sorte. Estudava no colégio Júlio de Castilhos, que como a pouco referi, era um colégio importante. Lembro dos meus com os quais eu aprendi poucas coisas, que aprendi muito bem no ensino médio.Por exemplo, acredito que a idéia de modelo é algo que eu trabalho tanto, quando eu dou aulas agora e agora nesse mini-curso, que eu estou dando aqui nesse evento e mesmo nos meus livros, A idéia de modelo eu acredito que aprendi isso com um professor Verner Kiel, um professor que morreu muito jovem, insistia em mostrar que nós não trabalhamos com a realidade, mas que a concebemos através de modelos. Isso talvez foi o que de mais significativo eu aprendi no ensino médio. Quando terminei o ensino médio,não podia me imaginar seria professor, muito menos professor de química. A química não tinha muita atração para mim no ensino médio, eu era um aluno que gostava de tudo, gostava de física, gostava de matemática, gostava até de filosofia, que nós tínhamos no científico. Mas eu não me fiz professor por causa das aulas do ensino médio. Recordo, que muitas vezes, quando faltava professor no curso científico, ia para frente e terminava explicando temas para os meus colegas. Claro que também não era só eu que fazia isso, nós éramos uma turma de curso noturno, portanto gente que tinha trabalhado durante todo o dia e se não tinha o terceiro período, mas ia ter o quarto e o quinto período, evidentemente que nós queríamos achar algo para fazer, então lá um de nós ia lá para frente. Eu lembro, que me vi muitas vezes ensinando assuntos que eu sei hoje que são importantes no ensino médio que contribuem para a alfabetização científica dos estudantes. Devo dizer que eu as aprendi sendo professor e tem coisas que eu me lembro mais claramente, eu tenho consciência de quando é que eu as aprendi. Muitas delas já era professor: a idéia de conceitos como o de mol, aprendi dando aula; a idéia de gases raros e a de gases ideais, eu não me lembro que tenham me ensinado., É evidentemente que me ensinaram, mas eu aprendi isso tentando explicar aos meus alunos e alunas. Aliás a matemática que eu sei hoje, eu a aprendi muito mais como professor de matemática que fui.

5. Quando o Senhor iniciou o seu trabalho na universidade o Senhor já iniciou como professor da área de educação?

Quando iniciei minha carreira de docente universitário fui professor de química geral e também de química orgânica. Na UFRGS, fui 32 anos professor, fui também professor de Química na UNISINOS, instituição onde comecei minha carreira de docente no ensino superior, fui professor universitário de Química na FAPA e na PUC. Minha incursão na Área de Educação ocorre no início da década de 80, inicialmente com a criação dos encontros de Debates de Ensino de Química. Veja que esta entrevista já ocorre na XXI edição destes eventos e valeria se pesquisar acerca do quanto estes eventos contribuíra/contribuem para a Educação Química no Brasil.. Como conseqüência dos EDQs surge, ainda nos anos 80 uma área de educação química dentro do departamento de química que ainda existe hoje, mas que não era considerada pela maioria dos colegas, pois uma área de educação, dentro de um instituto de química não tem valor nenhum. Fui também por muitos anos o coordenador da comissão de carreira de Química ou seja responsável pela comissão de curso, onde se introduziu um grupo de seis disciplinas de educação química,duas de cada um dos três departamentos e nessas disciplinas,mais importantes eram disciplinas aquelas que eram as de transposição de conteúdos, ou seja, de como trabalhar no ensino médio conteúdos que eram estudados nas universidades. Havia poucos que queriam lecionar essas disciplinas; estas eram as que eu mais gostava trabalhar. Também aqui aconteceu, um dos bons acidentes da minha vida quando havia uma disciplina de história da química e ninguém queria leciona-la até porque isso era considerado pela maioria dos meus colegas algo menos importante. Eu aceitei, e disso surgiu a minha paixão, primeiro por história da química. Logo aí eu vi que isso era muito restrito e comecei estudar história da ciência. Depois, quando estava estudando história da ciência, vi que não adiantava estudar apenas história da ciência e tinha que estudar também história das artes, história da linguagem, história da filosofia, história das religiões, e se tivesse mais tempo para estudar, estudaria a história das magias.Então poderia fazer diferentes tessituras com a história da construção de conhecimento, Assim me tornei professor de história da ciência, hoje sou o autor de um livro de história da ciência que modestamente já está na décima primeira edição, com quase quarenta e cinco mil livros vendidos,,dizer isso traduz um pouco aquilo que é meu fazer educação.

6. E a prática de ensino professor?

Recordo muito pouco das minhas aulas de prática de ensino, quando fui aluno e depois quando fui professor a situação foi diferente. Quando fui aluno, tive um bom professor, mas as nossas práticas de ensino eram o período que o professor não precisava dar as suas aulas, que ele tinha no colégio de aplicação, Ele discutia da aula um pouco e depois tínhamos que dar aula no colégio de aplicação, fazer plano de ensino, mostrava para ele se estava certo; ; ele sempre assistia às nossas aulas e nunca me esqueço, quando entrei uma vez na sala de aula estava escrito no quadro negro: aberta a temporada de caça aos estagiários quer dizer, os estudantes do colégio de aplicação detestavam a presença dos estagiários, se sentiam cobaias. Anos depois, era eu que estava dando prática de ensino.Fui professor de prática de ensino de química na UFRGS, na PUC, na ULBRA e agora na UNISINOS leciono Metodologia de Ensino de Ciências Na prática de ensino gostei sempre era bastante inovador. Encontrei ainda nesse evento o Maurivan e quando o Maurivan foi meu aluno de prática de ensino, nós fizemos algo muito interessante.

7. Foi seu aluno na prática de ensino?

Sim

8. Sim, mas em qual universidade?

Na PUC. Nesta instituição nós organizamos na universidade o que nós poderíamos chamar do curso pré-vestibular, onde se oferecia nos aula de química para os alunos da zona periférica da cidade e nossa prática de ensino era feita no dar aula para esses alunos lá e isso era muito bom, porque todos assistiam, todos participavam.Houve outras experiências de prática e hoje trabalho na graduação do ensino com uma disciplina que para mim é muito gratificante que é metodologia de ensino de ciências no curso de pedagogia. Na Metodologia de Ensino de Ciências são grupos muito bons, em geral só alunas, que maior parte são professoras do ensino fundamental e em geral são professores de 1º a 4ª série se faz um trabalho muito bonito é baseado no que descrevo no meu livro alfabetização científica o resgate de saberes populares e se traz esses saberes populares para sala de aula para fazê-los saberes escolares. Isso é algo que eu gosto muito.

9. Professor gostaria se o senhor pudesse falar um pouco mais resgatando sua experiência como professor de prática de ensino o que o Senhor fazia como o Senhor fazia, porque o Senhor fazia assim?

Minha experiência de professor de prática de ensino começa quando como professor do departamento de química inorgânica,sou chamado a colaborar numa disciplina de prática de ensino, porém sou colocado como assistente de outro professor, que tinha sido inclusive meu professor de prática de ensino, que não tinha formação em didática nenhuma. Era um físico-químico bastante importante, o seu doutorado era em fisico-química mas era o dono da cadeira eu tinha que fazer como ele queria. Isso me desgostava porque tudo consistia em mandar os alunos fazer plano de ensino, olhar os planos de ensino e assistir as aulas deles e avalia-los e terminava aí. Então isso foi uma experiência muito ruim no meu começo de professor de prática de ensino,Além daquela que eu me referi antes na PUC, como uma experiência de prática de ensino diferente, até porque havia mais autonomia, há uma outra que foi uma disciplina que existiu no Brasil nos anos 70, num programa que se chamava PREMEM: programa emergencial de formação de professores para o ensino médio; foram nos anos da ditadura, quando o governo tinha muito dinheiro do Banco Mundial. foram construídos grandes prédios e se formava professores em cursos intensivos de licenciatura. Formava-se professores em 1 ano. Havia uma licenciatura em ciências para formar professores de ciências e eu trabalhava a prática de ensino de química com aquele alunos e alunas. Gostava muito disso, primeiro que eram professores que estudavam em regime de internato, ficávamos trabalhando intensivamente Algo muito diferente que fazia era selecionar conteúdos para eles dar aulas. Aí já se sentia um pouco meu espírito de sempre buscar coisas alternativas então se procurava fazer aulas que não havia em muitos livros textos e como podiam ensinar com material alternativo e também de resgatar saberes populares etc. Se bem que essa parte de resgate de saberes populares, talvez teve mais forte em mim não como professor de prática de ensino mas fazendo às vezes de professor de prática de ensino de uma das experiências que pra mim é mais gratificante que eu trabalho com formação de professores e professoras para os assentamentos e para os acampamentos do movimento dos sem terra, uma experiência já mais documentada, tenho alguns textos escritos sobre isso e no meu livro Alfabetização científica : Questões e desafios para a Educação, há 2 capítulos sobre isso., Na verdade com esses grupos faço uma prática de ensino de química, trabalhando as coisas que eles sabem fazer, por exemplo, correção de solo, uso adubos orgânicos, técnicas de lavagem de roupas, técnicas de purificação de água, talvez isso não nome de prática de ensino de química,

10. Se o Senhor fosse propor hoje um curso de prática de ensino o que o Senhor proporia o que o Senhor gostaria de fazer nesse curso?

Rejane, essa pergunta é difícil, mas se há algo importante é que nós temos que cada vez mais trabalhar com aquilo que é menos trabalhado quando se dá aula por causa dos vícios que tem os professores, há que algumas coisas por exemplo, a idéia que nós trabalhamos como modelos, a idéia que nos trabalhamos um mundo fantasticamente pequeno, a idéia que nós trabalhamos em conhecimento que não está pronto, então encharcar numa prática de ensino, onde se faria os estudantes dar aula para os seus colegas assistirem e então escolher alguns conteúdos onde eles tivessem que trabalhar com a idéia de modelos de um mundo muito pequeno e ver como é enraizada a construção do conhecimento,.

11. Qual seria a característica do professor ideal?

Antes de qualquer coisa e acima de tudo e por primeiro, um professor fantasticamente crítico, um professor que soubesse perguntar se para cada um dos conteúdos que ele seleciona porque que ele decidiu ensinar tal conteúdo como é que ele ensina-lo, e especialmente o que os estudantes vão fazer isso. Podes me chamar de um utilitarista, mas acredito que nesse ponto vou enfatizar que o professor tem que saber criticar o que ensina, por que ensina e como ensina. Já deves ter lido um dos meus livros, onde mostro que a maioria daquilo que se ensina não serve para nada. Então, gostaria que professoras e professores fossem capazes de criticar aquilo que ensinam Isso vale tanto para o ensino fundamental, como para o ensino médio ou para o ensino superior. Tenho recebido convites palestras exclusivamente pra os professores do ensino superior e tenho visto que eu não preciso fazer grandes diferenças quando falo professores do ensino superior. Esse ano houve uma conjugação de uma série de situação, nas quais fui convidado para dar seminários que inauguram os anos letivos, numa situação houve algo interessante, numa capital de um estado do Brasil, em uma das escolas para as classes mais abastadas e na semana seguinte, em outra capital eu trabalhei com professoras e professores de periferia. Em ambas as situações, disse quase o mesmo talvez o recado mais enfático que eu tenho feito, isto que possa até ter escandalizado alguns colegas, é de que ensinem menos conteúdos, mas ensinem esses conteúdos de uma maneira mais crítica. Isso tu já lestes em meus livros. No Alfabetização científica : Questões e desafios para a Educação há um capítulo acerca dessa temática. O professor informador já era e o que precisaremos é cada vez mais de professores formadores. As fantásticas tecnologias que aí estão não vão vencer o professor formador, elas já venceram o professor informador. Então acredito que essa é a função da Prática de ensino, transformar professoras e professores informadores em homens e mulheres mais críticos, assim mais formadores;

12. Essa seria também uma das características do Senhor de um bom professor de química?

Não tenho dúvida bastaria essa.

13. O seu curso de licenciatura é que o senhor hoje não tá atuando na licenciatura de química?

Não, na minha universidade não há licenciatura em química. Desenvolvo muito do te relatei na Metodologia de Ensino de Ciências no curso de Pedagogia;

14. Como o senhor vê o professor, como esse professor de prática de ensino a questão das 300 horas, o Senhor já pensou um pouquinho?

Tenho discutido isso em diferentes situações. Aliás estas discussões são repetitivas. Não é o número de horas que o Ministério da Educação define é que conferir uma melhor qualidade social a Educação.

15. Professor uma coisa que eu queria lhe perguntar o que é para o Senhor ciência?

O que é ciência afinal?Para os efeitos daquilo que discuto com os professores de ciência e tu pode achar reducionista a minha resposta, mas eu vou defender que a ciência é uma linguagem para nós entendermos o mundo natural. Temos que ter presente que aceita essa definição, de que a ciência é construto humano, feito pelos homens e pelas mulheres e muito mais pelos homens do que pelas mulheres por causa de uma sociedade machista que fomos, pois essa ciência que nós ensinamos é uma ciência branca, uma ciência cristã, uma ciência ocidental e uma ciência masculina. Mas se ela é um construto humano, ela é falível, pois a ciência não tem dogma, a ciência tem algumas verdades e essas verdades são transitórias Se tu me perguntasses para comparar a ciência de hoje com a ciência de 100 anos atrás, esta era marcada pelas certezas e aí eu sempre gosto de citar um texto de Berthellot que não me ocorre citar de memória aqui mas quando ele disse que a ciência tudo pode sozinha e só ela tem as verdades definitivas. A ciência de agora associo a ela a palavra incerteza e então cito outro químico, Prigogine prêmio Nobel de química 1977, que diz que temos que nos acostumar a abandonar as nossas certezas e ouvir atentamente o universo, que nós ainda não conseguimos vê-lo como um todo. É ainda Prigogine que afirma: só tenho uma certeza: as minhas incertezas. Essa é a marca da ciência hoje: um construto humano para que nós possamos entender melhor o mundo natural e marcado pela incerteza. Acredito essa é também uma discussão que temos que fazer com professoras e professores e o quanto este construto humano tem artificialmente estabelecido gavetinhas. Diz-se isso é física, isso é matemática..., quando na verdade, especialmente quando ensinamos Ciências, mesmo Química devemos procurar uma postura mais holística na concepção da Vida e mesmo do Universo. Também eu não vou discutir isso contigo agora, mas costumo afirmar que é mais difícil, mais complexo ensinar ciências no ensino fundamental do que ensinar ciência na universidade ou mesmo na pós-graduação.

16. E a química professor?

Acredito que valham as mesmas considerações.

17. A sua avaliação professor como é que o Senhor avaliava os seus alunos?

O tempo verbal está mal posto: avaliava, não, pois ainda avalio.

18 . Avalia é não eu digo da prática de ensino?

Acredito que a avaliação sempre é o mais crítico no nosso ser professor, porque não é por nada que a nossa avaliação usualmente é uma avaliação ferreteadora, pois a avaliação tem a marca de mostrar os fracassos. Numa disciplina de prática de ensino deve é algo razoavelmente fácil de avaliar, porque discutimos acerca de um produto que não é permanente, que está em uma numa sala e então temos que fazer aquela avaliação e isso que nos interessa, muito mais o como do que o que; não é o conhecimento que alunos e alunas ele têm de química, mas como ele transmite esse conhecimento. Diria que na prática de ensino há a valorização do como e não a valorização do que.

19. O Senhor lembra as maiores dificuldades que o Senhor teve como professor e de prática de ensino ou não?

Acredito que uma das dificuldades que eu tive que fazer aquilo que um outro professor, que era o titular da disciplina exigia, com o que não concordava. Essa foi uma das dificuldades, a outra foi o quanto, muitas vezes era desagradável assistir aulas de prática de ensino dos estagiários, muitas das quais exigiam, deslocamento para outros lugares para acompanhar alunos e alunas. Era muito difícil para mim não intervir quando os estagiários ensinavam algo menos correto e especialmente quando os estudantes “cobaia” massacravam os estagiários. Isso sempre me era algo desconfortável.

 

© 2007 - 2008 - Attico Chassot - Direitos Reservados - Powered by: