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Ele existiu e existe, pois narramos sua história
“Naquele
tempo existia um homem. Ele existiu e existe, pois
narramos sua história.” |
Eric
Hobsbawm, um dos maiores historiadores vivo, escreveu um
livro (Pessoas extraordinárias: Resistência,
Rebelião e Jazz. São Paulo: Paz e Terra, 1998)
acerca de pessoas cujos nomes são conhecidos apenas
pelos parentes e pelos vizinhos. Esse texto é para
falar de uma pessoa que também é extraordinária.
Nos dias 7, 8 e 9 de julho, quase meia centena de pessoas
se reunirá para celebrar o centenário de nascimento
de Affonso Oscar Chassot. São seus três filhos
e duas filhas, 23 netos, 7 bisnetos e aqueles que se agregaram
a esses por laços familiares. Também, então,
se recordará de maneira especial a esposa desse Patriarca,
Maria Clara Volkweiss Chassot (1909-2001) e dois dos filhos
já falecidos: Sirne (1940-2002) e José Maria
(1948-1996).
Vamos celebrar aprendizados. Mostrar para seus netos e bisnetos
objetos de madeira que ele confeccionou. Em um banco de
marceneiro reuniremos algumas de suas ferramentas e tudo
isso catalisará contar histórias. Vamos então
buscar subsídios para estar nessa brecha entre passado
e o futuro.
Não é difícil entender as homenagens
que muitos homens e também algumas mulheres proeminentes
recebem, quando se completam aniversários de efemérides
que marcaram suas vidas. Também é fácil
compreender porque aquelas pessoas extraordinárias
das quais fala Hobsbawm são usualmente esquecidas.
Para os ‘padrões de medidas de mérito
social’ elas não fizeram nada de excepcional.
O que faz alguém ser extraordinário? Talvez
um dia ver que as terras de seu pai não podiam ser
compartidas por seus muitos irmãos e, então,
e deixá-las para aprender o ofício em uma
fábrica de órgãos em Hamburgo Velho.
Ter sido um ferroviário responsável por dezenas
de anos. Ou esposo e pai dedicado à educação
de seus filhos e filhas.
Ainda evoco uma cena do frio dia 9 de julho de 1987. Era
uma quinta-feira, dia normal de trabalho. Havíamos
velado meu pai durante toda noite. Na metade da manhã
houve uma missa e depois se formou um cortejo fúnebre
da cidade de Montenegro até o cemitério do
Faxinal. Num momento, de um dos carros em que estou olho
para trás. Vejo dezenas de carros, que se estendiam
por pelo menos por três quarteirões. Perguntei-me:
que fizera esse marceneiro, para que tanta gente deixasse
os seus fazeres para vir sepultá-lo num bucólico
cemitério, não muito distante da casa onde
nascera?
Um de seus filhos lhe dedicou um livro que traz um ofertório,
que certamente seria subscrito não apenas por seus
descendentes e lhe evocam histórias, mas por aquelas
e aqueles que o conheceram e talvez por alguns dos leitores
deste texto. “Para Afonso Oscar Chassot (1906-1987),
meu pai, que, mesmo nunca tendo visto seu nome impresso
em um livro ou jornal, muito me ensinou: a gostar de ouvir
notícias, instrumental importante para conhecer e
entender a história, e a vibrar com a profissão,
marceneiro hábil que era, trabalhando a madeira com
amor. Para ele, este livro e estes versos, adaptados da
poeta Hannah Szenes (1921-1944):
Bendito
o fósforo que ardeu e acendeu a fogueira!
Bendita a labareda que ardeu no âmago do coração!
Bendito o coração que soube parar
com honra! |
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