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Maracananización
futebol e uma hospitalização em 2002
“A
questão não é que enfermidade
tem uma pessoa, mas quem é a pessoa que sucumbiu
a uma enfermidade.”
William
Osler
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Ao ver este título,
muito provavelmente, como tu que me lês agora, teria
interrogações. Imagino que não deves
prever acerca de que tratam estas escrituras de horas
de recreio. Vê-lo, reproduzido, em jornal televisivo,
como manchete principal, na largura de todas as colunas
da primeira página de um jornal esportivo de Madrid,
por conhecer o contexto, permitiu-me a conexão.
E, a conexão era, sem que isso me devesse causar
orgulho, brasileira. As manchetes de capa de todos os
jornais madrilenos, mesmo dos não esportivos, na
quinta-feira, 7 de março, eram de tristeza. A alusão
a uma maracananización era ao nosso lúgubre
18 de junho de 1950, quando no Maracanã lotado,
o Brasil perdeu a Copa do Mundo de Futebol, na partida
final para o Uruguai, quando a lógica (e, claro
que existe mais lógica do que aquela determinada
pelos deuses do futebol, que não devem se ocupar
com sempre tão recordado retrospecto ou com a sempre
muito considerada situação de mando do local
do jogo!) era de uma avassaladora vitória dos donos
da casa.
Esta tragédia da história esportiva brasileira
era evocada, mais de meio século depois, para compará-la
com aquela que se abatera sobre o time espanhol de maior
torcida, no exato dia de seu centenário. O ocorrido
para os brasileiros era, e eu sequer imaginava, um substantivo
internacional, ao menos na Espanha, para evocar um feito
em que um time tem um resultado assegurado, quase como
favas contadas e acontece o contrário. Agora, como
em 1950, antecipadamente estavam prontos toda a espécie
de souvenires imagináveis – de flâmulas
a medalhas de ouro – celebrando uma conquista que
jamais ocorreria: campeão da Copa do Rei no ano
de seu centenário.
O Real Madrid, no dia de seu centenário perdeu
a última partida, diante do Rei e da Rainha e mais
75 mil pessoas, no seu estádio. Perdia, assim um
dos títulos mais cobiçados de cada temporada:
a Copa do Rei. Esta, diferentemente do campeonato da liga
da 1ª divisão, começa com a participação
de um número muito grande de clubes, inclusive
das divisões inferiores, em uma série de
eliminatórias em uma partida, disputada no campo
da equipe considerada mais fraca. Chegara a grande final
e nela estava, na dada mais conveniente possível,
o aniversariante favorito. Esta foi mostrada pela televisão,
ao vivo, para mais 20 países e na Espanha registrou
picos de audiência inéditos no final do segundo
tempo, com mais de 13 milhões de expectadores (isso
corresponde que houve momentos que de cada três
espanhóis, um estava vendo o jogo).
1
Esta frase pronunciada pelo médico
Willian Osler, recordando aos médicos que uma mesma
enfermidade pose afetar de maneiras muito distintas diferentes
pessoas, é citada por Olivier Sacks, em entrevista
publicada no Babelia, suplemento literário semanal
do jornal El País, 06ABR2002, p. 2-3..
Minha mulher e eu, uma e outro
pouco atentos com futebol, fomos desde que aqui chegamos,
envolvidos no espírito das comemorações.
Moramos na mesma rua do imponente estádio do Real
Madrid. Vivemos na estação Cuzco e o estádio
está na estação seguinte, que antes
se chamava Lima e agora é Santiago Bernabeu, nome
de um dos presidentes históricos do Real Madrid.
Ali, diariamente vê pessoas, em geral presentes
em excursões de diferentes partes do mundo, se
fazendo fotografar diante do ícone de uma das glórias
do futebol mundial. Cada dia, quando lá passávamos,
de ônibus ou a pé, víamos, em um grande
placar, a indicação de quantos dias faltavam
para o esperadíssimo 06 de março.
Desde as vésperas havia alterações
de trânsito, não apenas para a mega partida,
mas para construção de passarelas, onde
após o jogo haveria o carnaval da vitória.
Houve protestos com os transtornos de trânsito que
ocorrera nas imediações de uma das mais
lindas fontes de Madrid, as Cibeles, para onde estava
programado o grande carnaval da vitória. Nas livrarias
e quiosques de jornais havia, já há semanas,
desde singelas até robustas publicações
para celebrar o feito. Na semana, as esmeradas revistas
dominicais dos principais jornais tinham o badalado centenário
como tema de capa. Acerca destas não faltaram também
protestos daqueles que não são madridistas.
Alguém escreveu: Por favor que culpa tenho eu que
o Real Madrid faça não sei quantos anos?
Um catalão ironicamente agradece que o jornal tenha
saído do armário, igual como já havia
feito seu presidente , e não escondido o seu madridismo.
Nestas cartas não faltaram críticas a uma
tentativa de desmemorização da imprensa,
tentando fazer de uma presumida adesão do clube
ao franquismo durante a ditadura passasse agora a ser
mostrada apenas como uma lenda negra, que devesse ser
esquecida. Mas volto ao jogo nervoso.
A partida já ia para os minutos finais e o Deportivo
da Coruña vencia por 2 a 1, quando chegou estar
vencendo por 2 a 0. Eu torcia, discretamente pela equipe
galega por duas razões: quando não sei por
quem torcer, escolho sempre quem está em desvantagem
ou o dito mais fraco, agora, os donos da casa não
precisavam de minha ajuda pois havia milhões a
fazê-lo; a outra razão é que os galegos
me são simpáticos por causa de nossa maior
aproximação lingüística, assim,
por exemplo, faz diferença para alma ver escrito
em placas informativas Rua ao invés de Calle. Não
vou esquecer, quando pela primeira vez que fui à
Universidad Complutense de Madrid, ao preencher o cartão
de uma das bibliotecas, escrevi “Facultad de Ciencias
da Información” e fui alertado por meu orientador,
que me disse, elegantemente, que eu estava escrevendo
em galego e não castelhano, pois devia escrever
“Facultad de Ciencias de la Información”.
Assim, minhas razões eram muito afetivas para com
os galegos. Poderia acrescentar a estas razões,
um falso orgulho pátrio, usualmente ausente em
mim: o melhor jogador em campo era Mauro
2
A referência aqui era a José
Maria Aznar, Presidente do Conselho de Governo; com a
adjetivação seu Presidente, acusava também
o jornal de governista. Dias antes, em um jantar comemorativo
ao centenário, o Presidente havia brindado o clube
aniversariante, referindo que deste menino nutria simpatias
pelo Real Madrid. Isso foi suficiente para que provocasse
cartas de protestos na imprensa, com a alegação
de que um presidente eleito, se tornava representante
de todos espanhóis e assim não poderia manifestar
suas preferências clubísticas. Esta foi a
única situação em que não
aderi às críticas a Aznar, pois, convenhamos,
me parecem totalmente improcedentes.
Silva, um brasileiro que jogava no time de A Coruña.
Roberto Carlos, também brasileiro, do Real Madrid,
tinha uma atuação discreta.
Chego a desconhecer-me escrevendo, pela primeira vez na
vida, sobre futebol, pois nem sabia do passado futebolístico
destes e de outros brasileiros que jogam na Espanha. Justifico,
pois isso deve ser uma contaminação pelo
que mais vejo presente nas emissoras de rádio e
nos jornais. Aliás, não raro ao saber em
que sou brasileiro perguntam minha opinião sobre
este ou aquele jogador, o que me obriga a alguns papaguear
fugazes. Fala-se no futebol de clubes espanhóis.
Estranho o quase nada que ouço, neste ocaso do
inverno, acerca da Copa do Mundo e da seleção
espanhola, para quem os heróis da Operação
Triunfo compuseram um hino que apresentaram na solenidade
de abertura que estou comentado. Pasmo-me, eu um comentarista
esportivo temporão.
Ouvi no meu radinho que haveria 4 minutos de prorrogação
e parecia que o Deportivo não resistiria. Liguei
e desliguei três ou quatro vezes o rádio
nesta longa prorrogação. As prorrogações
só são curtas quando o time para qual torcemos
está perdendo. Não queria (ou não
podia) me emocionar e também era importante ser
discreto nas manifestações de um torcedor
contra os da casa que o acolhia.
Quase 23h30min, terminou o jogo. Apenas uma das enfermeiras
correu levantando um pano e festejando entre dezenas de
colegas murchos de tristeza. Eu sorri sozinho em meu minúsculo
box, de menos de 2m por 2m, deitado em uma maca, onde
já estava há mais de 24 horas, separado
por uma indevassável cortina, com uma pequena abertura,
do resto do amplo salão de emergência de
um dos maiores hospitais de Madrid.
Nunca esteve em nossos planos estar no Santiago Bernabeu
nesta noite, tida como memorável, mas não
julgamos que valesse incluir assistir uma partida de futebol
ou mesmo uma tourada em nossas recreações.
Mas pensávamos, que poderíamos sentir o
clima no Paseo de la Castellana, já florida de
amendoeiras por uma primavera que se antecipara, vendo
inclusive o espetáculo de fogos de artifícios
e muitas outras festividades. Agora, eu não pertencia
nem aqueles 13 milhões que se emocionavam diante
da televisão. Minha mulher, muito provavelmente,
estivesse acompanhando esta final pela televisão.
Chegara a Fundación Jimenez Díaz ou Clinica
de Nuestra Señora de la Concepción, com
a Gelsa, quando começava a escurecer, na terça-feira,
dia 05 de março. Um médico de meu seguro
saúde me examinara em casa, pela tarde e diferentemente
do que me vira no domingo, achou mais prudente um diagnóstico
com exames hospitalares, com autorização
imediata do seguro para hospital que definíssemos.
Fomos para o Concepción, um renomado hospital universitário
ligado a Universidad Autónoma de Madrid, apenas
prevenidos que os exames seriam de cerca de quatro horas.
Achamos que era apenas tentativa do médico que
pedira os exames para anunciar a amplitude de recursos
que estariam a nossa disposição. Contávamos
que num muito mais tarde estaríamos em casa. Mesmo
assim nos prevenimos com massudos livros.
3
Um programa do tipo Big
Brother.
Das 19h às 23h estive
separado da Gelsa, onde os exames envolveram cinco intervenções,
que no seu total não demoram mais de 20 minutos.
Todo o resto do tempo foi de impaciente espera, onde pouco
interagi com dezenas de parceiros, de diferentes classes
sociais, pagantes e não pagantes, submetidos às
mesmas rotinas. Lembro de minhas conversas com um casal
de equatorianos, sem documentos, em que ele gemia de uma
provável apendicite.
Primeiro três alunas de enfermagem vieram para medidas
de pressão e temperatura. Tempos depois, atendeu-me
uma enfermeira e perguntou acerca do que sentia e dos
desencadeantes do quadro. Fiz-lhe circunstanciado relato,
não sem dificuldades com o idioma. Houve algumas
dificuldades. Assim não sabia responder: ¿Cómo
fue la ultima deposición? Ante minha dificuldade
ela usou uma linguagem mais coloquial: ¿Cómo
están las cacas? Entendi, então, que ela
queria saber acerca de minhas fezes. A pergunta seguinte,
mesmo não tão usual, foi facilitada pelo
contexto: ¿Cuánto pis ha hecho hoy? e compreendi
que devia estar me inquirindo sobre volume de urina.
Aquela sensação que se vai tendo que, com
correr das semanas, que se vai ficando mais fluente na
língua do país desaparece ante um sentir-se
quase imbecil diante de perguntas, aparentemente tão
simples, como estas, do domínio de qualquer espano
falante. Isso nos recorda, uma vez mais, o ser estrangeiro.
Depois de algum tempo vieram colher sangue para exames.
Os presságios de uma saída rápida
se anuviaram quando me deixaram com um abottgati na mão
direita. Depois me dei conta que as dezenas pessoas que
aguardavam em diferentes salas de espera, tinham semelhante
prenda no dorso de uma das mãos. Lamentei que a
minha não tivesse na esquerda, pois sou destro
e a escrita fica dificultada.
Tempos depois, me informam que deveria fazer uma placa.
Logo descubro que isso é fazer uma radiografia.
Quando chego na sala primeiro recebo uma ordem: ¡Túmbese!
Não entendi e, então, a operadora do Raio
X mostrou-me, com mímicas que devia deitar-me com
o abdome para cima. A seguinte radiografia seria em pé.
A ordem, dada pela distinta senhora, veio pronta: ¡Baje
los pantalones hasta el culo! Entendi, mas não
imaginava como o cu pudesse ser um nível adequado
até onde eu devesse abaixar as calças.
Depois mais uma angustiante espera. Recebo uma informação:
“Está sendo aguardado na unidade um cirurgião
para ver as placas!” Então fiquei temeroso.
Consigo evadir-me e localizar a Gelsa para repartir com
ela minhas apreensões.
Eu já localizara, por um papel que levara do médico
do seguro onde estava parado meu prontuário. Acompanhava
a sua imobilidade. Depois, de longe assisto um provável
cirurgião olhar as minhas radiografias envoltas
pelas baforadas de seu cigarro.
Perto das 22h30min sou chamado a uma sala para exame por
um cirurgião, aliás dois. Muito me apalparam.
Olharam e reolharam as radiografias. Deram um diagnóstico:
Obstrução intestinal com necessidade de
ficar hospitalizado em observação, com uma
sonda nasogástrica. Nem imaginara bem o que seria.
Apavorei-me por não poder ir
4
Dispositivo com agulha
e torneirinhas, inserido na veia para introduzir soro
e para injetar medicação intravenosa.
embora. Perguntei se não poderia esperar 24 horas
em casa para ver se o quadro regredia por si. Não.
Pedi que chamassem a Gelsa. Ela que vivera horas de apreensões
também se surpreende e ficou muito triste com este
diagnóstico. Foi obtida autorização
telefônica de Barcelona do seguro para o procedimento.
A colocação da sonda teve um complicador:
a enfermeira só dizia-me: “Trague, como faz
quando fuma!” o que para quem nunca fumou se constituía
em um ajuda zero e que não amenizava em nada o
desconforto gerado pelo avanço da sonda pela minha
narina direita já que ela desistira da tentativa
de inserção pela esquerda.
Então, surgiu um grande contratempo. Não
havia leito disponível no hospital. Fui então
para o box antes descrito, com a promessa que já
cedo pela manhã teria cama. Isso, todavia, não
aconteceu. Não ter quarto significava também
não ter a companhia da minha mulher. Vivia a partir
de então a minha primeira noite em hospital no
exterior. E esta era uma experiência com a qual
não contava nesta minha primeira situação
de residente estrangeiro. Estava acumulando um novo aprendizado
e talvez por isso o relato que trago aqui, como ensina
um ex-aluno meu, o médico e pesquisador da Fundação
Oswaldo Cruz, Prof. Dr. Luis David Castiel (1999, p 145)
.
Momentos como aqueles que eu passava a viver são
férteis para vermos (nossas) histórias.
As situações que adensam e corporificam
esse capítulo foram excepcionalmente prolíferas.
Mas, houve dois momentos que foram, especialmente fortes.
Um e outro destes momentos tinham que ver com presídios
– e aqui as conexões eram transparentes no
me ver confinado – e mesmo que minhas experiências
acerca de sistemas carcerários se resumam, apenas,
a livros e filmes, onde isso é tema central. Não
posso deixar de referir aqui Estação Carandiru
como um dos livros que mais me tenha impressionado, especialmente
pelo quanto desconhecia/desconheço de um mundo
que cada vez mais nos é tão próximo.
Ainda, neste parêntese, não quero omitir
Vigiar e Punir
5
CASTIEL,
Luis David. A medida do possível... saúde,
risco e tecnobiociência. Rio de Janeiro : Editora
Fiocruz / ContraCapa, 1999.
6
VARELLA. Drauzio, Estação Carandiru, São
Paulo : Companhia das Letras, 1999. Li em janeiro de 2000,
mais fragilizado por viver um período pós-operatório
(ver nota 6) é um dos livros que me tocou mais
fundo. Nele o médico paulista Drauzio Varella faz
um relato dramático de sua experiência em
um dos maiores presídios da América Latina.
Com esta leitura revisei minha mesquinha lamentação
em relação a desconfortos hospitalares,
então, e aqui devo fazer novamente. Acredito que
muito poucos dos leitores possam imaginar o que seja um
presídio sem ler o relato cru de Varella. Ainda
que lateralmente, sou obrigado a dizer, aqui, o quanto,
na minha opinião, este livro deveria se constituir
em leitura obrigatória de qualquer campanha de
educação, como, por exemplo, aquelas que
se fazem visando mostrar aos jovens os perigos das drogas
(e aqui incluo o fumo) e das doenças sexualmente
transmissíveis. Quando vejo certas exigências
de leituras que se fazem a estudantes no ensino médio,
afirmo, sem parecer radical, que a leitura de Estação
Carandiru deveria ser enfaticamente recomendada.
7
FOUCAULT, Michel. Vigiar e punir [referência à
edição brasileira] texto que só agora
trabalhei mais intensamente em um dos seminários
que fiz no pós-doutoramento. Nesta obra um dos
mais importantes sociólogos do século 20
faz uma análise acerca da genealogia dos presídios
e dos castigos físicos, iniciando inclusive com
a crua narrativa de uma lancinante execução
de um condenado. Foucault nos traz interrogações
acerca do quanto nossas prisões hoje são
símbolos que devem nos envergonhar. “O século
19 se sentia orgulhoso das fortalezas que construía
nos limites e às vezes no coração
das cidades. O encantava esta nova benignidade que substituía
os patíbulos. Se maravilhava já em não
mais castigar os corpos, mas em saber corrigir assim as
almas. [...] O século 19 inventou sem dúvidas
as liberdades, porém deu um subsolo profundo e
sólido: a sociedade disciplinar da qual seguimos
dependendo. Temos que voltar a situar a prisão
na formação desta sociedade de vigilância.
A penalidade moderna já não se atreve dizer
que castiga crimes: pretende readaptar aos delinqüentes”(M.
Foucault).
que tem
uma impressionante atualidade quando se acompanham as
poderosas e cruentas relações de poder que
ocorrem, atualmente, nos presídios brasileiros.
Fiz divagações fora do texto. Agora, fecho
o parêntese e volto a enclausurar-me no meu box,
na emergência do Concepción, já vivendo
uma necessária, e jamais sonhada, hospitalização.
A primeira conexão com prisão é esta,
é a de ser despido das minhas roupas, as ver ensacadas
com meus sapatos e colocadas amarradas sob a cama. Consegui,
resgatar um livro que estava lendo, uma caneta e um bloco
de notas, que substituiu por umas horas o meu diário
, . Não recebi nem uma camisola ou algo parecido.
Era o preso privado de qualquer bem material que o ligava
o mundo externo. O saco com os meus pertences recordam-me
onde estou.
Também as ligações afetivas foram
dolorosamente cindidas, pois fui privado do contato com
a Gelsa, até os primeiros 15 minutos de visitas,
na manhã seguinte. Aliás para ela ocorreu
o mesmo, pois nem por telefone podia saber algo a meu
respeito. E não há dúvidas que quem
está de fora sofre muito mais, como já ocorrera
nos exames da véspera, pois não sabe o que
está acontecendo. Havia porque desta minha conexão
com prisão.
A segunda das evocações, tem uma conotação
com libertação. Reservo-a para o encerramento
deste capítulo.
Já sou bastante experiente em passar noites em
CTI ou UTI. Conto um pouco disso em Uma rapsódia
prostática , mas ficar 24 horas acompanhando os
ingressos e as saídas de dezenas pacientes no setor
de emergência de um mega-hospital, não é
muito trivial, especialmente quanto se está acondicionado
num box, em frente a uma unidade de tratamento coronário
intensivo, que de tempos em tempos, recebe pacientes para
ajudas emergenciais.
Uma vez mais, aflorou em mim um interrogante, que já
me fiz em outras idênticas circunstâncias.
Porque os profissionais da saúde não são
educados no falar mais baixo, nesses locais, especialmente
quando o fazem entre eles. A Fundación Jimenez
Días mantém no mesmo complexo uma escola
de enfermagem e o Concepción é o local de
8
Aqui, em se tratando de um livro de memórias faço
uma nota para contar que escrevo diários e que
em 2001, completei o 18º volume ininterrupto de meus
diários. Tenho uma dezena anteriores, com interregnos
que lamento existirem. Quando considero que nos volumes
seqüenciais que tenho desde 1º de janeiro de
1984, há já mais de 6,5 mil dias sem nenhuma
falta considero-me privilegiado. Brinco dizendo que meus
biógrafos não terão falta de material
de pesquisa, mas sonho que talvez um dia, um neto ou uma
neta possa ver como foram nossos tempos. A propósito,
tenho muito presente a recomendação: "Nunca
viajo sem o meu diário. É preciso sempre
ter alguma coisa sensacional para ler no trem" Oscar
Wilde (1854 - 1900).
9
Acerca do assunto escrevi: Sobre a arte de escrever diários.
Entrelinhas, ano 1, n. 1. p.11-15, março de 2001.
Também o jornal ABC Domingo de 00XXX2002 publicou
matéria contando sobre este meu fazer.
10
Uma rapsódia prostática é um livro
de 160 páginas. Inédito. Foi escrito entre
novembro de 1999 e fevereiro de 2000, antes e depois de
uma cirurgia de próstata para extirpação
de um câncer, que fiz em dezembro. Mesmo que não
tenho tido interesse de editoras comerciais, chegou a
ser indicado por médicos e pesquisadores para a
série “Patografia” que é um
gênero literário que inclui (auto)biografias
cujo eixo primordial se localiza no relato escritural
das experiências que envolveram circunstâncias
de grave adoecimento, tratamentos traumáticos e
mesmo morte de determinada pessoa. Inédito comercialmente,
já foi útil em forma papel ou eletrônica
a alguns homens, especialmente na tomada de decisões
quando vítimas de câncer de próstata.
Ofereço, sem custo, aqui cópias por correio
eletrônico.
estágio das estudantes.
Estas desfilam garbosas com um estetoscópio no
pescoço, que lhes confere um status distinguido,
todavia, parecem prestar muito pouca atenção
aos muitos gemidos que se ouve permanentemente matizando
suas falas buliçosas.
Aqui, não posso deixar de recordar a importância
nos currículos dos cursos universitários
de uma disciplina de Legislação e Ética
Profissional, onde, lamentavelmente, muitas vezes se fica
mais em aspectos de legislação do que nas
profundas e necessárias discussões a cerca
da ética, tão necessária na formação
dos novos profissionais. Max Weber (1864-1920) nos ajudou
a entender o sentido de Beruf (= profissão) como
uma dimensão ética fundamental de toda a
profissão, quando se empenha em mostrar tanto a
Ciência quanto a Política como vividas como
uma profissão. O problema da educação
profissional é, sem dúvida, um problema
de educação moral ou ética. Assim
a dignidade de toda a profissão radica na maior
consciência e no exercício de serviços
à sociedade que a profissão presta. Um dos
aspectos mais fundamentais desta percepção
das relações entre profissão e ética
é a Paidéia ou a dimensão pedagógica
da própria Ciência, destinada, como já
chamava a atenção Aristóteles, não
somente a saber o que é o Bem, mas fundamentalmente
a fazer o Bem.
A noite fora movimentada, especialmente por enfermos mais
graves, que gemiam em corredores no aguardo de cama, tanto
no setor privado como na parte pública. Também
acompanhei durante a noite e no resto do dia muitas das
anamnésia feitas com ingressantes, que por serem
em sua maioria idosos, exigia do profissional que os entrevistava
que falassem alto, fazendo que eu me inteirasse de muitas
histórias. Também acompanhei algumas aulas
tendo como “objeto” pacientes que aguardavam
leito em frente ao meu box.
Pela manhã de quarta-feira, a expectativa que conseguisse
quarto cedo se esboroou. A Gelsa que partira, à
noite, com a promessa de que às 9h eu estaria em
um quarto chega cedo ao hospital. Mas só tem acesso
ao meu box, por 15 minutos, depois das 11h. Antes, nem
por telefone, de casa ou mesmo já no Concepción,
tem acesso a qualquer informação a meu respeito.
Para ela se inicia, na manhã de quarta-feira, mais
uma pesada tarefa. O seguro exige um detalhamento muito
pormenorizado dos procedimentos seguintes, com indicação
do número de radiografias e de outros procedimentos
necessários. Isso desagrada aos médicos.
A Gelsa deve fazer, de telefone público, diversos
contatos com São Paulo e com Barcelona. Esses vão
se intensificar, ainda, até a tarde do dia seguinte,
quando, só então, se solucionam as pendências
com a seguradora.
A Gelsa contou-me das mensagens eletrônicas e dos
“torpedos” para telefones celulares que fizera
para meus filhos e filhas e para familiares. Falou das
emoções que teve com os imediatos telefonemas
do Bernardo e sua amorosa disponibilidade de vir para
cá, para estar conosco. Isso nos sensibilizou;
lembramos muito de sua presença quando
11
Expando um pouco o tema
Olhando a Ciência com lentes diferentes onde busco
em um texto em que Weber fala da Ciência como profissão
releituras hodiernas. Isso é um dos capítulos
do livro cxcxcxcxcxcxcxc em preparação.
12
Informação acerca do princípio e
evolução duma doença até a
primeira observação do médico (Aurélio).
de minha cirurgia de próstata.
Também contou de muitas mensagens de solidária
torcida que chegavam.
Nesta visita chega um presente inesperado. Já no
endereçamento identifico, pela letra o remetente:
meu querido amigo e colega da Unisinos Carlos Alberto
Gianotti. O conteúdo: algo que os brasileiros foram
presenteados e que eu desconhecia: O Pasquim 21. Presenteio-me
com sua leitura, mas seu tamanho não é prático
para se ler com sondas e outras parafernálias.
Preferi o ABC que tem suas mais de 100 páginas
encadernadas com grampos. Praticidade também conta
como uma opção.
Na tarde de quarta-feira, tenho o primeiro contato com
o cirurgião que é responsável pelo
meu caso. Dispõe das radiografias do dia anterior.
Define mais 24 h para observações e solicita
uma nova placa, o que me oferece, três horas após,
uma primeira saída na maca para uma viajada à
sala de raio X. Ao ver a quantidade de pacientes que aguardavam
em estreitos corredores, dei-me conta o quanto minha situação
era privilegiada, isolado em meu minúsculo, e digamos
privativo, box.
Em torno das 18h há uma leva de macas que são
removidas para os quartos. Mais de uma vez funcionários
vem olhar uma papeleta amarela que é aquela que
me garantirá uma cama. É um salva conduto
que continua sem uso. Em algumas vezes, tudo que dizem
é a repetidíssima expressão local:
Vale! Outros, menos entusiasmado, miram e remiram a papeleta
e dizem: Vale! Vale! E as esperanças de uma ascensão
a um quarto se esboroam.
Já à noite, depois de uma conversa com um
médico, que não pertencia aqueles que deviam
me atender, mas que atraí para uma conversa onde
comparávamos os tempos de residência médica,
as oportunidades de emprego e as condições
de trabalho no Brasil e na Espanha, consigo que ele olhasse
minha radiografia da tarde. Não me deu nenhuma
esperança que pudesse sair sem uma cirurgia.
A Gelsa chegou para a visita das 21h. Levou, primeiro
um susto muito grande, pois a impediram de entrar, com
alegação de que meu nome não constava
na lista daqueles que pudessem ser visitados. Afortunadamente
fez-se de surda e adentrou na emergência. Encontra-me
assustado, pois vira os familiares chegar e ela não
aparecer. Tudo era mais um dos muitos esquecimentos. Sua
visita é fugaz, pois agora havia cama, mas o seguro
não autorizava a transferência para uma unidade
particular. Ela inicia nova e intensa rodada de telefonemas.
Depois das 22h ela entra vibrando com a autorização.
Nos emocionamos. Iria para um quarto. Ficaríamos
juntos. Ela sobe para esperar-me. E esperou muito. Só
quase meia-noite, quando já assistira sozinha o
Deportivo arrebatar ao Real Madrid a Taça do Rei,
que ingresso, muito feliz e cheio de esperanças,
em apartamento muito confortável da zona privada
do Jimenez Díaz. As condições agora
muito diferentes. Apenas para termos comparativos, refiro
que uma diária do quarto do hospital onde me instalo,
sem remédios e sem honorários médicos,
corresponde ao que pagamos por uma semana de aluguel do
apartamento de 100 m2 mobiliado que vivemos.
A primeira noite tinha tudo para ser muito melhor. E foi,
mesmo que a sonda me irritasse por demais a garganta.
A quinta-feira começou com muitos interrogantes.
Onde terminaria o meu dia? Ainda no hospital? Sonhava
que fosse em casa.
A Gelsa buscou jornais e envolvia-se, uma vez mais, com
assuntos do seguro, pois recebera um telefonema de São
Paulo (era então 6h da manhã no Brasil)
que estava havendo novas dificuldades para autorizações.
Recebemos pela manhã a visita da Julia Varela,
que amavelmente me trouxe jornais. O cirurgião
veio e determinou nova radiografia. Ao retornar do raio
X, a funcionária que fizera meu transporte, agora
já em cadeira de rodas, permitiu, contrariando
normas, que eu olhasse a radiografia. Tive, então,
grandes esperanças que me escaparia de uma cirurgia.
Um tempo depois, o médico confirmou isso. A vibração
não foi maior, pois as pendências com o seguro
continuavam e eu via a Gelsa ser fatigada por isso.
À tarde uma grande notícia. O médico
anuncia: a sonda vai ser retirada!Vale! Deixa o quarto.
Concluo, que iria ao posto e voltaria logo para a extração.
Longos quinze minutos se passam. Chega uma enfermeira,
para uma inspeção de rotina. Conto de minha
espera. Diz não saber de nada. Vale! Tempos depois,
uma outra chega. Digo-lhe de meu desejo de ver eliminado
algo que tanto me irrita. Diz que vai ver se há
autorização. Vale! Aqui afloram muito forte
as experiências que vivi, quanto retirei a sonda
por ocasião da cirurgia da próstata. Em
Uma rapsódia prostática faço contraponto
a um livro, onde seu autor tem na retirada de sua sonda
algo descrito como das coisas mais difíceis, com
intervenções hospitalares. Lembro, como
então para mim fora algo muito fácil fazer
a auto-retirada, em casa, da sonda e libertar-me de um
aguilhão que por 15 dias me incomodava. Um tempo
depois, volta a primeira das enfermeiras, que diz que
se olvidara de meu caso. Faço um novo apelo. Digo
de meus medos. Peço para ver se há uma autorização.
Novas promessas. Vale! Então acontece algo quase
milagroso. Ao buscar o aparelho telefônico para
comunicar-me com a Gelsa, antes queria reservar para dar-lhe
a notícia quando já estivesse sem sonda,
vejo-me, sem que nada sentisse, com a parte terminal da
sonda sob meus olhos. Assusto-me. Não teria causado
alguma infecção interna! Interfono para
o posto, dizendo que precisava de ajuda. Nada. Por quase
quinze minutos olho para a sonda em minhas mãos.
Entra a camareira para trazer a água. Digo-lhe
que caiu a sonda. Ela pede ajuda no corredor. Chegam,
então, duas enfermeiras para fazer a retirada da
sonda. Estava tudo resolvido. Vale!
Ligo para a Gelsa, já bem mais liberto. Relato
o ocorrido. Ela vibra. Instantes depois isso já
se fazia notícias em suas mensagens eletrônicas
familiares. Abençoada internet! Logo em seguida,
minha filha Ana Lúcia telefona. Reparto com ela
a alegria de não estar mais com sonda.
Agora podia receber a primeira alimentação
líquida. Ganho um chá preto. Tomo-o como
se fosse um champanhe de celebração. Horas
depois tenho direito a nova alimentação.
Surge então problemas lingüísticos.
No cardápio de infusões sugerido há
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KORDA, Michael. De homem
para homem : sobrevivendo ao câncer de próstata
São Paulo : Martins Fontes, 1997. Korda teve uma
história de descoberta de seu câncer prostático
muito semelhante à minha. Seu livro, há
um tempo foi uma quase bíblia para a Gelsa e para
mim. Ele, com o relato de suas lutas, se transformou num
decisivo êmulo para mim. Disse muito entusiasmado,
antes da cirurgia, a João Alfredo Zoppas, meu competentíssimo
cirurgião de então: “Vou escrever
o anti-Korda”. Concordo com a apresentação
do livro que faz o Dr. Miguel Srougi: “E, mais que
tudo, Michael Korda ensina que lutar contra o câncer
de próstata vale a pena. Talvez, não por
mera coincidência, sua última palavra neste
livro tenha sido ‘esperança’.”
Foi isso que aprendi nesse livro. Talvez, se não
me sentisse sempre tentado a fazer o contraponto a Korda
não teria escrito Uma rapsódia prostática,
e mesmo sendo inédito, ara mim escrevê-lo
foi talvez a melhor terapia. Só ganhei, e muito,
com as longas horas que sua tessitura me envolveu.
“poleo ”, que na minha fome entendo, porque
assim o desejo, como sendo “pollo ”. Desfeito
o lamentável engano, opto por manzanilla pensando
ser o que o Aurélio registra como maçanilha:
“Pequena maçã; maçãzinha,
maçãzita” insisto que queria mesmo
era uma “manzana” ou seja uma maçã.
Veio o chá e não uma maçã.
A camareira, ante meus rogos, traz, inadvertidamente,
uma maça. Não chego a terminá-la.
Agora, a enfermagem foi ágil no reconhecer a proibição
e a mesma me foi seqüestrada, pois estava proibido
de ingerir qualquer alimento sólido. O incidente
terminou acelerando minha alta, pois no dia seguinte o
médico viu o relato no prontuário, observando
que cedo meu organismo já aceitava alimentos sólidos.
Salve os desentendimentos lingüísticos. Vale!
Foi muito bom ter cedo a companhia da Gelsa. Mas só
podemos festejar plenamente os sucessos do dia com a chegada,
no entardecer de quinta-feira, de um sinal azul total
do seguro. Nossa noite, ante o recrudescimento de dores
e a problemas com a administração do soro,
determinou um início de sexta-feira com apreensões.
Mas já poder tomar o primeiro banho de ducha e
sentar-me em uma poltrona para a leitura dos jornais que
a Gelsa buscara dá-me um novo ânimo.
Não tínhamos dados perspectiva da visita
do médico. Uma hipótese otimista seria poder
estar no sábado em casa. A Gelsa deixa o Concepción
com esta expectativa.
Eu aguardo médico. Ele demora, mas resisto a deitar-me.
Quero que me encontre fora da cama. Mais de 14h ele felizmente
chega. Há uma primeira, e penso que decisiva pergunta:
¿Cómo están los peidos? Respondo
com muito entusiasmo: ¡Muy bien! ¡Muy bien!
Sucede a mais (in)esperada notícia: ¡Entonces
estás de alta! ¡Vale!
O médico explica-me que o que eu tive pode-se repetir
dentro de três dias, ou três anos ou, talvez,
dentro de trinta anos. Quando isso acontecer, terá
que se repetir os procedimentos recém vividos.
Contou, ainda, que sua equipe faz por ano cerca de 1.500
cirurgias na tripa (não é muito usada a
palavra intestino), mas que isso ocorre em apenas 5% dos
pacientes. Não há qualquer dieta ou restrição
alimentar agora. Há uma única recomendação
e só tenho uma coisa a fazer: torcer. ¡Vale!
Ainda estava com soro e recebo um telefonema da minha
filha Clarissa. Logo no Brasil a família festeja
minha alta. Quando a Gelsa chega em casa encontra no telefone
a fabulosa notícia.
Afortunadamente poderia pagar as despesas telefônicas
e teria dinheiro para um táxi, pois na véspera
a Gelsa fizera uma caução de 30€ para
empréstimo do controle
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Posteriormente venho a
saber que se trata de uma planta herbácea de talos
com abundantes ramos e veludos, odor agradável,
folhas pequenas, redondas e denteadas, flores azuis ou
arroxeadas, muito usadas para preparo de chás.
[Clave, dicionário eletrônico da língua
espanhola]
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Frango.
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Segundo a descrição
do Clave (referido em nota anterior) deve corresponder
a nosso popular chá de maçanilha, tão
usado em nossas dores de barriga na infância, que
recordo o olor de suas flores brancas com centro amarelo,
que eram usadas inclusive como enchimentos de travesseiros.
Não encontrei dicionarizada, nesta acepção,
no Aurélio. O Clave na sua descrição,
que corresponde as lembranças antes referidas.
Diz também ser sinônimo de camomila, que
também não corresponde a descrição
do Aurélio. Meus conhecimentos de botânica
registram um débito para com o leitor.
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A referência é
à edição eletrônica do Aurélio
Século XXI (Rio de Janeiro : Nova Fronteira, 1999)
remoto da televisão.
Agora também estava materialmente rico. Junto minhas
tralhas e as roupas da Gelsa em uma sacola. Encerro a
conta. Saio do Concepción.
Ganho a rua. É uma muito linda tarde primaveril
de sexta-feira. Não sei que direção
tomar. Não conheço nada das imediações.
Entrara já no anoitecer de terça pela emergência.
Vivo aquela cena tão comum em filmes, quando presidiário
entra no mundo sonhado da liberdade. Era assim que eu
me sentia. Era um liberto. Momentos depois repartia com
um atencioso taxista minhas alegrias rumo ao encontro
com a Gelsa.
Agora só precisava torcer. Torcer também
é rezar. A tripa devia deixar de ser o coração
ou ainda mais, como era desde domingo, quase todo meu
ser. Era eu e a minha tripa. Sim, iria torcer, mesmo tendo
que fazer das tripas o coração para esquecer
que tenho tripa.
Chegado ao nosso El Nido, fui amorosamente acolhido pela
mulher que sofreu, uma vez mais do que eu nesta minha
doença, aparentemente tão vulgar, especialmente
pela sua ocorrência fora do contexto da gente. Parecia
um recomeçar a viver. Tudo parecia quase um sonho.
Nossas noites de sextas-feiras, nesses nossos quase 15
anos juntos são sempre ritualisticamente festejadas.
São nossos melhores momentos de reencontros, mesmo
quando estamos distantes um do outro. E, esse nono shabath
madrileno não foi menos emocionante do que aquele
primeiro, em 12 de janeiro, quando dormíamos, pela
primeira vez, nesse nosso gostoso recanto, onde estamos
vivendo este período tão importante.
Era, uma vez mais, um grande momento de dar graças
a Vida. Vale!
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