Maracananización futebol e uma hospitalização em 2002

Maracananización

“A questão não é que enfermidade tem uma pessoa, mas quem é a pessoa que sucumbiu a uma enfermidade.”
William Osler

Ao ver este título, muito provavelmente, como tu que me lês agora, teria interrogações. Imagino que não deves prever acerca de que tratam estas escrituras de horas de recreio. Vê-lo, reproduzido, em jornal televisivo, como manchete principal, na largura de todas as colunas da primeira página de um jornal esportivo de Madrid, por conhecer o contexto, permitiu-me a conexão. E, a conexão era, sem que isso me devesse causar orgulho, brasileira. As manchetes de capa de todos os jornais madrilenos, mesmo dos não esportivos, na quinta-feira, 7 de março, eram de tristeza. A alusão a uma maracananización era ao nosso lúgubre 18 de junho de 1950, quando no Maracanã lotado, o Brasil perdeu a Copa do Mundo de Futebol, na partida final para o Uruguai, quando a lógica (e, claro que existe mais lógica do que aquela determinada pelos deuses do futebol, que não devem se ocupar com sempre tão recordado retrospecto ou com a sempre muito considerada situação de mando do local do jogo!) era de uma avassaladora vitória dos donos da casa.
Esta tragédia da história esportiva brasileira era evocada, mais de meio século depois, para compará-la com aquela que se abatera sobre o time espanhol de maior torcida, no exato dia de seu centenário. O ocorrido para os brasileiros era, e eu sequer imaginava, um substantivo internacional, ao menos na Espanha, para evocar um feito em que um time tem um resultado assegurado, quase como favas contadas e acontece o contrário. Agora, como em 1950, antecipadamente estavam prontos toda a espécie de souvenires imagináveis – de flâmulas a medalhas de ouro – celebrando uma conquista que jamais ocorreria: campeão da Copa do Rei no ano de seu centenário.
O Real Madrid, no dia de seu centenário perdeu a última partida, diante do Rei e da Rainha e mais 75 mil pessoas, no seu estádio. Perdia, assim um dos títulos mais cobiçados de cada temporada: a Copa do Rei. Esta, diferentemente do campeonato da liga da 1ª divisão, começa com a participação de um número muito grande de clubes, inclusive das divisões inferiores, em uma série de eliminatórias em uma partida, disputada no campo da equipe considerada mais fraca. Chegara a grande final e nela estava, na dada mais conveniente possível, o aniversariante favorito. Esta foi mostrada pela televisão, ao vivo, para mais 20 países e na Espanha registrou picos de audiência inéditos no final do segundo tempo, com mais de 13 milhões de expectadores (isso corresponde que houve momentos que de cada três espanhóis, um estava vendo o jogo).


1 Esta frase pronunciada pelo médico Willian Osler, recordando aos médicos que uma mesma enfermidade pose afetar de maneiras muito distintas diferentes pessoas, é citada por Olivier Sacks, em entrevista publicada no Babelia, suplemento literário semanal do jornal El País, 06ABR2002, p. 2-3..

Minha mulher e eu, uma e outro pouco atentos com futebol, fomos desde que aqui chegamos, envolvidos no espírito das comemorações. Moramos na mesma rua do imponente estádio do Real Madrid. Vivemos na estação Cuzco e o estádio está na estação seguinte, que antes se chamava Lima e agora é Santiago Bernabeu, nome de um dos presidentes históricos do Real Madrid. Ali, diariamente vê pessoas, em geral presentes em excursões de diferentes partes do mundo, se fazendo fotografar diante do ícone de uma das glórias do futebol mundial. Cada dia, quando lá passávamos, de ônibus ou a pé, víamos, em um grande placar, a indicação de quantos dias faltavam para o esperadíssimo 06 de março.
Desde as vésperas havia alterações de trânsito, não apenas para a mega partida, mas para construção de passarelas, onde após o jogo haveria o carnaval da vitória. Houve protestos com os transtornos de trânsito que ocorrera nas imediações de uma das mais lindas fontes de Madrid, as Cibeles, para onde estava programado o grande carnaval da vitória. Nas livrarias e quiosques de jornais havia, já há semanas, desde singelas até robustas publicações para celebrar o feito. Na semana, as esmeradas revistas dominicais dos principais jornais tinham o badalado centenário como tema de capa. Acerca destas não faltaram também protestos daqueles que não são madridistas. Alguém escreveu: Por favor que culpa tenho eu que o Real Madrid faça não sei quantos anos? Um catalão ironicamente agradece que o jornal tenha saído do armário, igual como já havia feito seu presidente , e não escondido o seu madridismo. Nestas cartas não faltaram críticas a uma tentativa de desmemorização da imprensa, tentando fazer de uma presumida adesão do clube ao franquismo durante a ditadura passasse agora a ser mostrada apenas como uma lenda negra, que devesse ser esquecida. Mas volto ao jogo nervoso.
A partida já ia para os minutos finais e o Deportivo da Coruña vencia por 2 a 1, quando chegou estar vencendo por 2 a 0. Eu torcia, discretamente pela equipe galega por duas razões: quando não sei por quem torcer, escolho sempre quem está em desvantagem ou o dito mais fraco, agora, os donos da casa não precisavam de minha ajuda pois havia milhões a fazê-lo; a outra razão é que os galegos me são simpáticos por causa de nossa maior aproximação lingüística, assim, por exemplo, faz diferença para alma ver escrito em placas informativas Rua ao invés de Calle. Não vou esquecer, quando pela primeira vez que fui à Universidad Complutense de Madrid, ao preencher o cartão de uma das bibliotecas, escrevi “Facultad de Ciencias da Información” e fui alertado por meu orientador, que me disse, elegantemente, que eu estava escrevendo em galego e não castelhano, pois devia escrever “Facultad de Ciencias de la Información”. Assim, minhas razões eram muito afetivas para com os galegos. Poderia acrescentar a estas razões, um falso orgulho pátrio, usualmente ausente em mim: o melhor jogador em campo era Mauro


2 A referência aqui era a José Maria Aznar, Presidente do Conselho de Governo; com a adjetivação seu Presidente, acusava também o jornal de governista. Dias antes, em um jantar comemorativo ao centenário, o Presidente havia brindado o clube aniversariante, referindo que deste menino nutria simpatias pelo Real Madrid. Isso foi suficiente para que provocasse cartas de protestos na imprensa, com a alegação de que um presidente eleito, se tornava representante de todos espanhóis e assim não poderia manifestar suas preferências clubísticas. Esta foi a única situação em que não aderi às críticas a Aznar, pois, convenhamos, me parecem totalmente improcedentes.

Silva, um brasileiro que jogava no time de A Coruña. Roberto Carlos, também brasileiro, do Real Madrid, tinha uma atuação discreta.
Chego a desconhecer-me escrevendo, pela primeira vez na vida, sobre futebol, pois nem sabia do passado futebolístico destes e de outros brasileiros que jogam na Espanha. Justifico, pois isso deve ser uma contaminação pelo que mais vejo presente nas emissoras de rádio e nos jornais. Aliás, não raro ao saber em que sou brasileiro perguntam minha opinião sobre este ou aquele jogador, o que me obriga a alguns papaguear fugazes. Fala-se no futebol de clubes espanhóis. Estranho o quase nada que ouço, neste ocaso do inverno, acerca da Copa do Mundo e da seleção espanhola, para quem os heróis da Operação Triunfo compuseram um hino que apresentaram na solenidade de abertura que estou comentado. Pasmo-me, eu um comentarista esportivo temporão.
Ouvi no meu radinho que haveria 4 minutos de prorrogação e parecia que o Deportivo não resistiria. Liguei e desliguei três ou quatro vezes o rádio nesta longa prorrogação. As prorrogações só são curtas quando o time para qual torcemos está perdendo. Não queria (ou não podia) me emocionar e também era importante ser discreto nas manifestações de um torcedor contra os da casa que o acolhia.
Quase 23h30min, terminou o jogo. Apenas uma das enfermeiras correu levantando um pano e festejando entre dezenas de colegas murchos de tristeza. Eu sorri sozinho em meu minúsculo box, de menos de 2m por 2m, deitado em uma maca, onde já estava há mais de 24 horas, separado por uma indevassável cortina, com uma pequena abertura, do resto do amplo salão de emergência de um dos maiores hospitais de Madrid.
Nunca esteve em nossos planos estar no Santiago Bernabeu nesta noite, tida como memorável, mas não julgamos que valesse incluir assistir uma partida de futebol ou mesmo uma tourada em nossas recreações. Mas pensávamos, que poderíamos sentir o clima no Paseo de la Castellana, já florida de amendoeiras por uma primavera que se antecipara, vendo inclusive o espetáculo de fogos de artifícios e muitas outras festividades. Agora, eu não pertencia nem aqueles 13 milhões que se emocionavam diante da televisão. Minha mulher, muito provavelmente, estivesse acompanhando esta final pela televisão.
Chegara a Fundación Jimenez Díaz ou Clinica de Nuestra Señora de la Concepción, com a Gelsa, quando começava a escurecer, na terça-feira, dia 05 de março. Um médico de meu seguro saúde me examinara em casa, pela tarde e diferentemente do que me vira no domingo, achou mais prudente um diagnóstico com exames hospitalares, com autorização imediata do seguro para hospital que definíssemos. Fomos para o Concepción, um renomado hospital universitário ligado a Universidad Autónoma de Madrid, apenas prevenidos que os exames seriam de cerca de quatro horas. Achamos que era apenas tentativa do médico que pedira os exames para anunciar a amplitude de recursos que estariam a nossa disposição. Contávamos que num muito mais tarde estaríamos em casa. Mesmo assim nos prevenimos com massudos livros.

3 Um programa do tipo Big Brother.

Das 19h às 23h estive separado da Gelsa, onde os exames envolveram cinco intervenções, que no seu total não demoram mais de 20 minutos. Todo o resto do tempo foi de impaciente espera, onde pouco interagi com dezenas de parceiros, de diferentes classes sociais, pagantes e não pagantes, submetidos às mesmas rotinas. Lembro de minhas conversas com um casal de equatorianos, sem documentos, em que ele gemia de uma provável apendicite.
Primeiro três alunas de enfermagem vieram para medidas de pressão e temperatura. Tempos depois, atendeu-me uma enfermeira e perguntou acerca do que sentia e dos desencadeantes do quadro. Fiz-lhe circunstanciado relato, não sem dificuldades com o idioma. Houve algumas dificuldades. Assim não sabia responder: ¿Cómo fue la ultima deposición? Ante minha dificuldade ela usou uma linguagem mais coloquial: ¿Cómo están las cacas? Entendi, então, que ela queria saber acerca de minhas fezes. A pergunta seguinte, mesmo não tão usual, foi facilitada pelo contexto: ¿Cuánto pis ha hecho hoy? e compreendi que devia estar me inquirindo sobre volume de urina.
Aquela sensação que se vai tendo que, com correr das semanas, que se vai ficando mais fluente na língua do país desaparece ante um sentir-se quase imbecil diante de perguntas, aparentemente tão simples, como estas, do domínio de qualquer espano falante. Isso nos recorda, uma vez mais, o ser estrangeiro.
Depois de algum tempo vieram colher sangue para exames. Os presságios de uma saída rápida se anuviaram quando me deixaram com um abottgati na mão direita. Depois me dei conta que as dezenas pessoas que aguardavam em diferentes salas de espera, tinham semelhante prenda no dorso de uma das mãos. Lamentei que a minha não tivesse na esquerda, pois sou destro e a escrita fica dificultada.
Tempos depois, me informam que deveria fazer uma placa. Logo descubro que isso é fazer uma radiografia. Quando chego na sala primeiro recebo uma ordem: ¡Túmbese! Não entendi e, então, a operadora do Raio X mostrou-me, com mímicas que devia deitar-me com o abdome para cima. A seguinte radiografia seria em pé. A ordem, dada pela distinta senhora, veio pronta: ¡Baje los pantalones hasta el culo! Entendi, mas não imaginava como o cu pudesse ser um nível adequado até onde eu devesse abaixar as calças.
Depois mais uma angustiante espera. Recebo uma informação: “Está sendo aguardado na unidade um cirurgião para ver as placas!” Então fiquei temeroso. Consigo evadir-me e localizar a Gelsa para repartir com ela minhas apreensões.
Eu já localizara, por um papel que levara do médico do seguro onde estava parado meu prontuário. Acompanhava a sua imobilidade. Depois, de longe assisto um provável cirurgião olhar as minhas radiografias envoltas pelas baforadas de seu cigarro.
Perto das 22h30min sou chamado a uma sala para exame por um cirurgião, aliás dois. Muito me apalparam. Olharam e reolharam as radiografias. Deram um diagnóstico: Obstrução intestinal com necessidade de ficar hospitalizado em observação, com uma sonda nasogástrica. Nem imaginara bem o que seria. Apavorei-me por não poder ir

4 Dispositivo com agulha e torneirinhas, inserido na veia para introduzir soro e para injetar medicação intravenosa.

embora. Perguntei se não poderia esperar 24 horas em casa para ver se o quadro regredia por si. Não. Pedi que chamassem a Gelsa. Ela que vivera horas de apreensões também se surpreende e ficou muito triste com este diagnóstico. Foi obtida autorização telefônica de Barcelona do seguro para o procedimento. A colocação da sonda teve um complicador: a enfermeira só dizia-me: “Trague, como faz quando fuma!” o que para quem nunca fumou se constituía em um ajuda zero e que não amenizava em nada o desconforto gerado pelo avanço da sonda pela minha narina direita já que ela desistira da tentativa de inserção pela esquerda.
Então, surgiu um grande contratempo. Não havia leito disponível no hospital. Fui então para o box antes descrito, com a promessa que já cedo pela manhã teria cama. Isso, todavia, não aconteceu. Não ter quarto significava também não ter a companhia da minha mulher. Vivia a partir de então a minha primeira noite em hospital no exterior. E esta era uma experiência com a qual não contava nesta minha primeira situação de residente estrangeiro. Estava acumulando um novo aprendizado e talvez por isso o relato que trago aqui, como ensina um ex-aluno meu, o médico e pesquisador da Fundação Oswaldo Cruz, Prof. Dr. Luis David Castiel (1999, p 145) .
Momentos como aqueles que eu passava a viver são férteis para vermos (nossas) histórias. As situações que adensam e corporificam esse capítulo foram excepcionalmente prolíferas. Mas, houve dois momentos que foram, especialmente fortes.
Um e outro destes momentos tinham que ver com presídios – e aqui as conexões eram transparentes no me ver confinado – e mesmo que minhas experiências acerca de sistemas carcerários se resumam, apenas, a livros e filmes, onde isso é tema central. Não posso deixar de referir aqui Estação Carandiru como um dos livros que mais me tenha impressionado, especialmente pelo quanto desconhecia/desconheço de um mundo que cada vez mais nos é tão próximo. Ainda, neste parêntese, não quero omitir Vigiar e Punir

5 CASTIEL, Luis David. A medida do possível... saúde, risco e tecnobiociência. Rio de Janeiro : Editora Fiocruz / ContraCapa, 1999.
6 VARELLA. Drauzio, Estação Carandiru, São Paulo : Companhia das Letras, 1999. Li em janeiro de 2000, mais fragilizado por viver um período pós-operatório (ver nota 6) é um dos livros que me tocou mais fundo. Nele o médico paulista Drauzio Varella faz um relato dramático de sua experiência em um dos maiores presídios da América Latina. Com esta leitura revisei minha mesquinha lamentação em relação a desconfortos hospitalares, então, e aqui devo fazer novamente. Acredito que muito poucos dos leitores possam imaginar o que seja um presídio sem ler o relato cru de Varella. Ainda que lateralmente, sou obrigado a dizer, aqui, o quanto, na minha opinião, este livro deveria se constituir em leitura obrigatória de qualquer campanha de educação, como, por exemplo, aquelas que se fazem visando mostrar aos jovens os perigos das drogas (e aqui incluo o fumo) e das doenças sexualmente transmissíveis. Quando vejo certas exigências de leituras que se fazem a estudantes no ensino médio, afirmo, sem parecer radical, que a leitura de Estação Carandiru deveria ser enfaticamente recomendada.
7 FOUCAULT, Michel. Vigiar e punir [referência à edição brasileira] texto que só agora trabalhei mais intensamente em um dos seminários que fiz no pós-doutoramento. Nesta obra um dos mais importantes sociólogos do século 20 faz uma análise acerca da genealogia dos presídios e dos castigos físicos, iniciando inclusive com a crua narrativa de uma lancinante execução de um condenado. Foucault nos traz interrogações acerca do quanto nossas prisões hoje são símbolos que devem nos envergonhar. “O século 19 se sentia orgulhoso das fortalezas que construía nos limites e às vezes no coração das cidades. O encantava esta nova benignidade que substituía os patíbulos. Se maravilhava já em não mais castigar os corpos, mas em saber corrigir assim as almas. [...] O século 19 inventou sem dúvidas as liberdades, porém deu um subsolo profundo e sólido: a sociedade disciplinar da qual seguimos dependendo. Temos que voltar a situar a prisão na formação desta sociedade de vigilância. A penalidade moderna já não se atreve dizer que castiga crimes: pretende readaptar aos delinqüentes”(M. Foucault).

que tem uma impressionante atualidade quando se acompanham as poderosas e cruentas relações de poder que ocorrem, atualmente, nos presídios brasileiros. Fiz divagações fora do texto. Agora, fecho o parêntese e volto a enclausurar-me no meu box, na emergência do Concepción, já vivendo uma necessária, e jamais sonhada, hospitalização.
A primeira conexão com prisão é esta, é a de ser despido das minhas roupas, as ver ensacadas com meus sapatos e colocadas amarradas sob a cama. Consegui, resgatar um livro que estava lendo, uma caneta e um bloco de notas, que substituiu por umas horas o meu diário , . Não recebi nem uma camisola ou algo parecido. Era o preso privado de qualquer bem material que o ligava o mundo externo. O saco com os meus pertences recordam-me onde estou.
Também as ligações afetivas foram dolorosamente cindidas, pois fui privado do contato com a Gelsa, até os primeiros 15 minutos de visitas, na manhã seguinte. Aliás para ela ocorreu o mesmo, pois nem por telefone podia saber algo a meu respeito. E não há dúvidas que quem está de fora sofre muito mais, como já ocorrera nos exames da véspera, pois não sabe o que está acontecendo. Havia porque desta minha conexão com prisão.
A segunda das evocações, tem uma conotação com libertação. Reservo-a para o encerramento deste capítulo.
Já sou bastante experiente em passar noites em CTI ou UTI. Conto um pouco disso em Uma rapsódia prostática , mas ficar 24 horas acompanhando os ingressos e as saídas de dezenas pacientes no setor de emergência de um mega-hospital, não é muito trivial, especialmente quanto se está acondicionado num box, em frente a uma unidade de tratamento coronário intensivo, que de tempos em tempos, recebe pacientes para ajudas emergenciais.
Uma vez mais, aflorou em mim um interrogante, que já me fiz em outras idênticas circunstâncias. Porque os profissionais da saúde não são educados no falar mais baixo, nesses locais, especialmente quando o fazem entre eles. A Fundación Jimenez Días mantém no mesmo complexo uma escola de enfermagem e o Concepción é o local de

8 Aqui, em se tratando de um livro de memórias faço uma nota para contar que escrevo diários e que em 2001, completei o 18º volume ininterrupto de meus diários. Tenho uma dezena anteriores, com interregnos que lamento existirem. Quando considero que nos volumes seqüenciais que tenho desde 1º de janeiro de 1984, há já mais de 6,5 mil dias sem nenhuma falta considero-me privilegiado. Brinco dizendo que meus biógrafos não terão falta de material de pesquisa, mas sonho que talvez um dia, um neto ou uma neta possa ver como foram nossos tempos. A propósito, tenho muito presente a recomendação: "Nunca viajo sem o meu diário. É preciso sempre ter alguma coisa sensacional para ler no trem" Oscar Wilde (1854 - 1900).
9 Acerca do assunto escrevi: Sobre a arte de escrever diários. Entrelinhas, ano 1, n. 1. p.11-15, março de 2001. Também o jornal ABC Domingo de 00XXX2002 publicou matéria contando sobre este meu fazer.
10 Uma rapsódia prostática é um livro de 160 páginas. Inédito. Foi escrito entre novembro de 1999 e fevereiro de 2000, antes e depois de uma cirurgia de próstata para extirpação de um câncer, que fiz em dezembro. Mesmo que não tenho tido interesse de editoras comerciais, chegou a ser indicado por médicos e pesquisadores para a série “Patografia” que é um gênero literário que inclui (auto)biografias cujo eixo primordial se localiza no relato escritural das experiências que envolveram circunstâncias de grave adoecimento, tratamentos traumáticos e mesmo morte de determinada pessoa. Inédito comercialmente, já foi útil em forma papel ou eletrônica a alguns homens, especialmente na tomada de decisões quando vítimas de câncer de próstata. Ofereço, sem custo, aqui cópias por correio eletrônico.

estágio das estudantes. Estas desfilam garbosas com um estetoscópio no pescoço, que lhes confere um status distinguido, todavia, parecem prestar muito pouca atenção aos muitos gemidos que se ouve permanentemente matizando suas falas buliçosas.
Aqui, não posso deixar de recordar a importância nos currículos dos cursos universitários de uma disciplina de Legislação e Ética Profissional, onde, lamentavelmente, muitas vezes se fica mais em aspectos de legislação do que nas profundas e necessárias discussões a cerca da ética, tão necessária na formação dos novos profissionais. Max Weber (1864-1920) nos ajudou a entender o sentido de Beruf (= profissão) como uma dimensão ética fundamental de toda a profissão, quando se empenha em mostrar tanto a Ciência quanto a Política como vividas como uma profissão. O problema da educação profissional é, sem dúvida, um problema de educação moral ou ética. Assim a dignidade de toda a profissão radica na maior consciência e no exercício de serviços à sociedade que a profissão presta. Um dos aspectos mais fundamentais desta percepção das relações entre profissão e ética é a Paidéia ou a dimensão pedagógica da própria Ciência, destinada, como já chamava a atenção Aristóteles, não somente a saber o que é o Bem, mas fundamentalmente a fazer o Bem.
A noite fora movimentada, especialmente por enfermos mais graves, que gemiam em corredores no aguardo de cama, tanto no setor privado como na parte pública. Também acompanhei durante a noite e no resto do dia muitas das anamnésia feitas com ingressantes, que por serem em sua maioria idosos, exigia do profissional que os entrevistava que falassem alto, fazendo que eu me inteirasse de muitas histórias. Também acompanhei algumas aulas tendo como “objeto” pacientes que aguardavam leito em frente ao meu box.
Pela manhã de quarta-feira, a expectativa que conseguisse quarto cedo se esboroou. A Gelsa que partira, à noite, com a promessa de que às 9h eu estaria em um quarto chega cedo ao hospital. Mas só tem acesso ao meu box, por 15 minutos, depois das 11h. Antes, nem por telefone, de casa ou mesmo já no Concepción, tem acesso a qualquer informação a meu respeito.
Para ela se inicia, na manhã de quarta-feira, mais uma pesada tarefa. O seguro exige um detalhamento muito pormenorizado dos procedimentos seguintes, com indicação do número de radiografias e de outros procedimentos necessários. Isso desagrada aos médicos. A Gelsa deve fazer, de telefone público, diversos contatos com São Paulo e com Barcelona. Esses vão se intensificar, ainda, até a tarde do dia seguinte, quando, só então, se solucionam as pendências com a seguradora.
A Gelsa contou-me das mensagens eletrônicas e dos “torpedos” para telefones celulares que fizera para meus filhos e filhas e para familiares. Falou das emoções que teve com os imediatos telefonemas do Bernardo e sua amorosa disponibilidade de vir para cá, para estar conosco. Isso nos sensibilizou; lembramos muito de sua presença quando

11 Expando um pouco o tema Olhando a Ciência com lentes diferentes onde busco em um texto em que Weber fala da Ciência como profissão releituras hodiernas. Isso é um dos capítulos do livro cxcxcxcxcxcxcxc em preparação.
12 Informação acerca do princípio e evolução duma doença até a primeira observação do médico (Aurélio).

de minha cirurgia de próstata. Também contou de muitas mensagens de solidária torcida que chegavam.
Nesta visita chega um presente inesperado. Já no endereçamento identifico, pela letra o remetente: meu querido amigo e colega da Unisinos Carlos Alberto Gianotti. O conteúdo: algo que os brasileiros foram presenteados e que eu desconhecia: O Pasquim 21. Presenteio-me com sua leitura, mas seu tamanho não é prático para se ler com sondas e outras parafernálias. Preferi o ABC que tem suas mais de 100 páginas encadernadas com grampos. Praticidade também conta como uma opção.
Na tarde de quarta-feira, tenho o primeiro contato com o cirurgião que é responsável pelo meu caso. Dispõe das radiografias do dia anterior. Define mais 24 h para observações e solicita uma nova placa, o que me oferece, três horas após, uma primeira saída na maca para uma viajada à sala de raio X. Ao ver a quantidade de pacientes que aguardavam em estreitos corredores, dei-me conta o quanto minha situação era privilegiada, isolado em meu minúsculo, e digamos privativo, box.
Em torno das 18h há uma leva de macas que são removidas para os quartos. Mais de uma vez funcionários vem olhar uma papeleta amarela que é aquela que me garantirá uma cama. É um salva conduto que continua sem uso. Em algumas vezes, tudo que dizem é a repetidíssima expressão local: Vale! Outros, menos entusiasmado, miram e remiram a papeleta e dizem: Vale! Vale! E as esperanças de uma ascensão a um quarto se esboroam.
Já à noite, depois de uma conversa com um médico, que não pertencia aqueles que deviam me atender, mas que atraí para uma conversa onde comparávamos os tempos de residência médica, as oportunidades de emprego e as condições de trabalho no Brasil e na Espanha, consigo que ele olhasse minha radiografia da tarde. Não me deu nenhuma esperança que pudesse sair sem uma cirurgia.
A Gelsa chegou para a visita das 21h. Levou, primeiro um susto muito grande, pois a impediram de entrar, com alegação de que meu nome não constava na lista daqueles que pudessem ser visitados. Afortunadamente fez-se de surda e adentrou na emergência. Encontra-me assustado, pois vira os familiares chegar e ela não aparecer. Tudo era mais um dos muitos esquecimentos. Sua visita é fugaz, pois agora havia cama, mas o seguro não autorizava a transferência para uma unidade particular. Ela inicia nova e intensa rodada de telefonemas.
Depois das 22h ela entra vibrando com a autorização. Nos emocionamos. Iria para um quarto. Ficaríamos juntos. Ela sobe para esperar-me. E esperou muito. Só quase meia-noite, quando já assistira sozinha o Deportivo arrebatar ao Real Madrid a Taça do Rei, que ingresso, muito feliz e cheio de esperanças, em apartamento muito confortável da zona privada do Jimenez Díaz. As condições agora muito diferentes. Apenas para termos comparativos, refiro que uma diária do quarto do hospital onde me instalo, sem remédios e sem honorários médicos, corresponde ao que pagamos por uma semana de aluguel do apartamento de 100 m2 mobiliado que vivemos.
A primeira noite tinha tudo para ser muito melhor. E foi, mesmo que a sonda me irritasse por demais a garganta. A quinta-feira começou com muitos interrogantes. Onde terminaria o meu dia? Ainda no hospital? Sonhava que fosse em casa.
A Gelsa buscou jornais e envolvia-se, uma vez mais, com assuntos do seguro, pois recebera um telefonema de São Paulo (era então 6h da manhã no Brasil) que estava havendo novas dificuldades para autorizações. Recebemos pela manhã a visita da Julia Varela, que amavelmente me trouxe jornais. O cirurgião veio e determinou nova radiografia. Ao retornar do raio X, a funcionária que fizera meu transporte, agora já em cadeira de rodas, permitiu, contrariando normas, que eu olhasse a radiografia. Tive, então, grandes esperanças que me escaparia de uma cirurgia. Um tempo depois, o médico confirmou isso. A vibração não foi maior, pois as pendências com o seguro continuavam e eu via a Gelsa ser fatigada por isso.
À tarde uma grande notícia. O médico anuncia: a sonda vai ser retirada!Vale! Deixa o quarto. Concluo, que iria ao posto e voltaria logo para a extração. Longos quinze minutos se passam. Chega uma enfermeira, para uma inspeção de rotina. Conto de minha espera. Diz não saber de nada. Vale! Tempos depois, uma outra chega. Digo-lhe de meu desejo de ver eliminado algo que tanto me irrita. Diz que vai ver se há autorização. Vale! Aqui afloram muito forte as experiências que vivi, quanto retirei a sonda por ocasião da cirurgia da próstata. Em Uma rapsódia prostática faço contraponto a um livro, onde seu autor tem na retirada de sua sonda algo descrito como das coisas mais difíceis, com intervenções hospitalares. Lembro, como então para mim fora algo muito fácil fazer a auto-retirada, em casa, da sonda e libertar-me de um aguilhão que por 15 dias me incomodava. Um tempo depois, volta a primeira das enfermeiras, que diz que se olvidara de meu caso. Faço um novo apelo. Digo de meus medos. Peço para ver se há uma autorização. Novas promessas. Vale! Então acontece algo quase milagroso. Ao buscar o aparelho telefônico para comunicar-me com a Gelsa, antes queria reservar para dar-lhe a notícia quando já estivesse sem sonda, vejo-me, sem que nada sentisse, com a parte terminal da sonda sob meus olhos. Assusto-me. Não teria causado alguma infecção interna! Interfono para o posto, dizendo que precisava de ajuda. Nada. Por quase quinze minutos olho para a sonda em minhas mãos. Entra a camareira para trazer a água. Digo-lhe que caiu a sonda. Ela pede ajuda no corredor. Chegam, então, duas enfermeiras para fazer a retirada da sonda. Estava tudo resolvido. Vale!
Ligo para a Gelsa, já bem mais liberto. Relato o ocorrido. Ela vibra. Instantes depois isso já se fazia notícias em suas mensagens eletrônicas familiares. Abençoada internet! Logo em seguida, minha filha Ana Lúcia telefona. Reparto com ela a alegria de não estar mais com sonda.
Agora podia receber a primeira alimentação líquida. Ganho um chá preto. Tomo-o como se fosse um champanhe de celebração. Horas depois tenho direito a nova alimentação. Surge então problemas lingüísticos. No cardápio de infusões sugerido há

13 KORDA, Michael. De homem para homem : sobrevivendo ao câncer de próstata São Paulo : Martins Fontes, 1997. Korda teve uma história de descoberta de seu câncer prostático muito semelhante à minha. Seu livro, há um tempo foi uma quase bíblia para a Gelsa e para mim. Ele, com o relato de suas lutas, se transformou num decisivo êmulo para mim. Disse muito entusiasmado, antes da cirurgia, a João Alfredo Zoppas, meu competentíssimo cirurgião de então: “Vou escrever o anti-Korda”. Concordo com a apresentação do livro que faz o Dr. Miguel Srougi: “E, mais que tudo, Michael Korda ensina que lutar contra o câncer de próstata vale a pena. Talvez, não por mera coincidência, sua última palavra neste livro tenha sido ‘esperança’.” Foi isso que aprendi nesse livro. Talvez, se não me sentisse sempre tentado a fazer o contraponto a Korda não teria escrito Uma rapsódia prostática, e mesmo sendo inédito, ara mim escrevê-lo foi talvez a melhor terapia. Só ganhei, e muito, com as longas horas que sua tessitura me envolveu.

“poleo ”, que na minha fome entendo, porque assim o desejo, como sendo “pollo ”. Desfeito o lamentável engano, opto por manzanilla pensando ser o que o Aurélio registra como maçanilha: “Pequena maçã; maçãzinha, maçãzita” insisto que queria mesmo era uma “manzana” ou seja uma maçã. Veio o chá e não uma maçã. A camareira, ante meus rogos, traz, inadvertidamente, uma maça. Não chego a terminá-la. Agora, a enfermagem foi ágil no reconhecer a proibição e a mesma me foi seqüestrada, pois estava proibido de ingerir qualquer alimento sólido. O incidente terminou acelerando minha alta, pois no dia seguinte o médico viu o relato no prontuário, observando que cedo meu organismo já aceitava alimentos sólidos. Salve os desentendimentos lingüísticos. Vale!
Foi muito bom ter cedo a companhia da Gelsa. Mas só podemos festejar plenamente os sucessos do dia com a chegada, no entardecer de quinta-feira, de um sinal azul total do seguro. Nossa noite, ante o recrudescimento de dores e a problemas com a administração do soro, determinou um início de sexta-feira com apreensões. Mas já poder tomar o primeiro banho de ducha e sentar-me em uma poltrona para a leitura dos jornais que a Gelsa buscara dá-me um novo ânimo.
Não tínhamos dados perspectiva da visita do médico. Uma hipótese otimista seria poder estar no sábado em casa. A Gelsa deixa o Concepción com esta expectativa.
Eu aguardo médico. Ele demora, mas resisto a deitar-me. Quero que me encontre fora da cama. Mais de 14h ele felizmente chega. Há uma primeira, e penso que decisiva pergunta: ¿Cómo están los peidos? Respondo com muito entusiasmo: ¡Muy bien! ¡Muy bien! Sucede a mais (in)esperada notícia: ¡Entonces estás de alta! ¡Vale!
O médico explica-me que o que eu tive pode-se repetir dentro de três dias, ou três anos ou, talvez, dentro de trinta anos. Quando isso acontecer, terá que se repetir os procedimentos recém vividos. Contou, ainda, que sua equipe faz por ano cerca de 1.500 cirurgias na tripa (não é muito usada a palavra intestino), mas que isso ocorre em apenas 5% dos pacientes. Não há qualquer dieta ou restrição alimentar agora. Há uma única recomendação e só tenho uma coisa a fazer: torcer. ¡Vale!
Ainda estava com soro e recebo um telefonema da minha filha Clarissa. Logo no Brasil a família festeja minha alta. Quando a Gelsa chega em casa encontra no telefone a fabulosa notícia.
Afortunadamente poderia pagar as despesas telefônicas e teria dinheiro para um táxi, pois na véspera a Gelsa fizera uma caução de 30€ para empréstimo do controle

14 Posteriormente venho a saber que se trata de uma planta herbácea de talos com abundantes ramos e veludos, odor agradável, folhas pequenas, redondas e denteadas, flores azuis ou arroxeadas, muito usadas para preparo de chás. [Clave, dicionário eletrônico da língua espanhola]
15 Frango.
16 Segundo a descrição do Clave (referido em nota anterior) deve corresponder a nosso popular chá de maçanilha, tão usado em nossas dores de barriga na infância, que recordo o olor de suas flores brancas com centro amarelo, que eram usadas inclusive como enchimentos de travesseiros. Não encontrei dicionarizada, nesta acepção, no Aurélio. O Clave na sua descrição, que corresponde as lembranças antes referidas. Diz também ser sinônimo de camomila, que também não corresponde a descrição do Aurélio. Meus conhecimentos de botânica registram um débito para com o leitor.
17
A referência é à edição eletrônica do Aurélio Século XXI (Rio de Janeiro : Nova Fronteira, 1999)

remoto da televisão. Agora também estava materialmente rico. Junto minhas tralhas e as roupas da Gelsa em uma sacola. Encerro a conta. Saio do Concepción.
Ganho a rua. É uma muito linda tarde primaveril de sexta-feira. Não sei que direção tomar. Não conheço nada das imediações. Entrara já no anoitecer de terça pela emergência. Vivo aquela cena tão comum em filmes, quando presidiário entra no mundo sonhado da liberdade. Era assim que eu me sentia. Era um liberto. Momentos depois repartia com um atencioso taxista minhas alegrias rumo ao encontro com a Gelsa.
Agora só precisava torcer. Torcer também é rezar. A tripa devia deixar de ser o coração ou ainda mais, como era desde domingo, quase todo meu ser. Era eu e a minha tripa. Sim, iria torcer, mesmo tendo que fazer das tripas o coração para esquecer que tenho tripa.
Chegado ao nosso El Nido, fui amorosamente acolhido pela mulher que sofreu, uma vez mais do que eu nesta minha doença, aparentemente tão vulgar, especialmente pela sua ocorrência fora do contexto da gente. Parecia um recomeçar a viver. Tudo parecia quase um sonho.
Nossas noites de sextas-feiras, nesses nossos quase 15 anos juntos são sempre ritualisticamente festejadas. São nossos melhores momentos de reencontros, mesmo quando estamos distantes um do outro. E, esse nono shabath madrileno não foi menos emocionante do que aquele primeiro, em 12 de janeiro, quando dormíamos, pela primeira vez, nesse nosso gostoso recanto, onde estamos vivendo este período tão importante.
Era, uma vez mais, um grande momento de dar graças a Vida. Vale!


 

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