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Texto memorista de meu 47° aniversário como
professor
47 é um número
primo. Ninguém celebra os números primos.
Talvez esteja antecipando em três anos uma celebração.
Mas nesse dia 13 de março de 2008 preciso fazer
evocações.
Hoje é um dia memorável em minha história:
em 13 de março de 1961 eu dava minha primeira aula.
Portanto já sou professor há 47 anos, já
estando no 48º ano letivo; mesmo quando exerci cargos
administrativos, estive também em sala de aula.
Para contar um pouco daquela segunda-feira, preciso trazer
algumas narrativas prévias.
Em dezembro de 1957 concluíra o curso ginasial
no então Ginásio São João
Batista, em Montenegro. Durante a 4ª série
viera à Porto Alegre, para fazer seleção
para ingressar no curso científico do Colégio
Estadual Júlio de Castilhos. Fui da primeira turma
que cursou no prédio atual, na Praça Piratini.
Lembro que nos meses iniciais de 1958 nossas salas de
aula não tinham vidraças. A inauguração
oficial do prédio foi no dia 29 de junho de 1958,
dia de São Pedro, padroeiro do Estado. Houve missa
com autoridades no saguão do Colégio. Mas
a marca maior do dia foi ter o Brasil ganho a primeira
Copa do Mundo na Suécia, razão dos atuais
festejos do cinqüentenário do Título.
No primeiro científico, estudei no turno da tarde,
trabalhando de manhã no Bar Caçula, na av.
Eduardo. No segundo e terceiro anos estudei noite, trabalhando
de dia no Restaurante da Reitoria da UFRGS. Quem fazia
o científico tinha usualmente dois destinos: Engenharia
ou Medicina. Quem fazia o Clássico, destinava-se
ao Direito. Mesmo estudando naquele que era considerado
o Colégio Padrão do Estado, não se
falava em outras alternativas, como Agronomia ou mesmo
uma Licenciatura.
Terminado os três anos de científico, fiz
em janeiro, vestibular na UFRGS para Engenharia. Então
se fazia vestibular unificado para a Escola de Engenharia
e a opção por modalidade acontecia depois
do 1º ano. Fui reprovado em desenho. Não consegui
desenhar uma parábola, como o exigido, com tinta
nanquim. Em fevereiro, na segunda chamada, se repetiu
o meu insucesso, pela mesma razão. Fiquei muito
frustrado. Não sabia o que fazer. Vi que não
havia sentido ficar em Porto Alegre, pois meu emprego
servia para pagar o aluguel de um quarto que eu compartia
com um colega que foi aprovado na Medicina.
Em Montenegro procurei sem sucesso algum emprego. Em qualquer
lugar era barrado na falta de experiência. Minha
mãe teve então uma idéia audaciosa.
Por que tu não vais ao Colégio Jacó
Renner? Lá podem estar precisando de professor.
Havia na proposta de minha mãe duas audácias:
a mais significativa, ela muito católica recomendar-me
uma escola mantida pela Igreja Episcopal; é preciso
recordar que o Concílio Vaticano II só começaria
no ano seguinte, e o vigário católico da
cidade negava a eucaristia aos pais que colocassem os
filhos no Jacob Renner, que era uma escola gratuita. A
outra, era o crédito que ele tinha no seu filho,
admitindo que esse tivesse requisitos de ser professor.
Mãe é mãe!
Na manhã de 13 de março fui ao Jacob Renner
sendo recebido pelo diretor Reverendo Ernst Bernhoeft,
alma-mater do Colégio. Não me lembro o que
ele me perguntou, mas sai da escola com emprego. Lecionaria
matemática nas duas 1ªs e duas 2ªs series
do curso ginasial. O curso ginasial era formado por quatro
anos que sucediam aos cinco anos do curso primário,
acessados mediante exame de admissão ao ginásio.
As séries que me foram destinadas corresponderiam
no sistema de hoje a 6ª e 7ª do ensino fundamental.
As aulas começariam na quarta-feira. Programei-me
para ir a Porto Alegre buscar meus livros no dia seguinte
e preparar-me para grande estréia. Todavia naquela
tarde aconteceria algo inusitado.
No começo da tarde, batem na casa de meus pais
onde eu morava – e perguntam pelo ‘Professor
Attico!’. Eu não sem atrapalhação,
pois nunca fora assim antes chamado, respondo que era
eu. ‘O Reverendo mandou este livro para o senhor
preparar uma aula para hoje à noite, pois o professor
do 3º científico vai faltar!’. Engoli
em seco e recebi o livro de Matemática do 3º
ano colegial, do Ary Quintella. Ainda tenho o livro de
capa verde, com um desenho de uma função
derivada na capa. Quem se preparava nervosamente para
a estréia daí a dois dias, pariria a fórceps
seu debute no magistério aquela noite.
Lembro-me que parti da João Pessoa, 1884 e desci
a Oswaldo Aranha, até perto da Estação
da Viação Férrea, onde ficava o Jacob
Renner, numa quase noite. Pelo caminho repeti várias
vezes a aula sobre ‘números complexos’
que preparava para alunos da mesma série que eu
freqüentara no ano anterior. Só fazia uma
oração: que ninguém me perguntasse
nada. Não recordo muito da aula, a não ser
que sentia o suor pingar na minha espinha. Lembro do grupo.
Eram talvez 10 alunos, dos quais mais de um no verão
seguinte preparou o vestibular comigo. A história
da falta do professor era blefe. Tornei-me depois deste
teste professor da turma.
As aulas de matemática no ginásio eram mais
difíceis do que aquelas do científico. Das
aulas da noite para às da manhã havia uma
diferença de seis anos de escolarização
e eu fazia com dificuldades essa transição.
Ensinava álgebra, mas eu não sabia fazer
as abstrações exigidas. Tinha que ensinar
o algoritmo da raiz quadrada e imaginar problemas para
contextualizar o assunto. Logo na primeira semana a colega
Maristela Lampert por ter muitas aulas no colégio
passou-me as suas aulas de Ciências nas turmas de
3º e 4º séries do Ginásio, assim
ministrava aulas nas quatro séries do ginasial.
Lembro que nessas aulas de Ciências tinha que ensinar
o aparelho reprodutor humano masculino e feminino para
um bando de adolescentes inquietos. Logo em seguida assumi
as aulas de Ciências da turma do 1º ano de
magistério, onde havia talvez umas 20 moças
e um rapaz e eu era quase vaiado quando me referia às
alunas e não aos alunos; alunas e alunos, então,
nem pensar. Só lamento muito que então,
não tivesse como hoje ‘meu diário’
manuscrito, do qual contei aqui em 29 de dezembro, já
no seu 25º volume, sem faltar um dia. Ali deveria
ter sido registrado muita preciosidade. Blogue, algo pós-Moderno,
então nem se imaginava.
Em julho aconteceu algo decisivo para que o professor
amador que eu era se profissionalizasse. Havia, então,
os exames de suficiências da CADES (Campanha de
Aperfeiçoamento e Difusão do Ensino Secundário),
do MEC, que fornecia, em várias cidades brasileiras,
nas férias, cursos intensivos de um mês para
não graduados, divididos em duas partes: conteúdo
e didática. Vencido o curso se fazia uma avaliação
se o participante tinha condições mínimas
para continuar professor; os melhores eram aconselhados
a fazerem os exames de suficiência. Vim para Porto
Alegre e durante todo julho fiz o Curso para professor
de Matemática. Foi então que aprendi pela
primeira vez algo de didática de sala de aula e
também acerca de conteúdos de matemática
para ensinar no Ginásio. Fiz exames e fui aprovado.
Ocorre que um colega meu que lecionava Química
no Jacozinho, engenheiro químico (ou estudante
de Engenharia) fez o exame e foi reprovado, tendo então
a sua licença precária cassada. Eu como
tinha obtido então registro de Matemática,
assumi as aulas de Química das três séries
do científico. Tinha então aulas em todo
o Ginásio e Científico, mais uma série
do Curso de magistério. O Reverendo me dizia que
meu salário era bem maior que o dele.
Em fevereiro do ano seguinte, fiz vestibular na Faculdade
de Filosofia, para o curso de Química. Fui um dos
três aprovados. Transferi-me para Porto Alegre e
continuava indo três noites por semanas à
Montenegro, para dar aulas de Química no Jacob
Renner.
Assim eu comecei há 47 anos a dar aulas. Agora
no 48º de magistério de emoções
muito semelhantes a então, como, por exemplo, agora
quando estou saindo para dar aulas de História
e Filosofia da Ciência para o Mestrado Profissional
de Reabilitação e Inclusão.
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